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Backup de nossas vidas. Quem faz?         

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 Por MARLI GONÇALVES

O mundo digital, todo lindo, moderno, sofisticado, avançado. Você vai confiando, confiando, toda a sua vida no computador, documentos, anos de trabalho e um dia… Puff. O equipamento não liga, não acende luzinha, não roda. Aquele corpo morto ali na sua frente. E aí? Para que santo rezar?
Primeira reação: desespero. Depois tenta se acalmar e começa a fazer todos os procedimentos de ressuscitação de que um dia ouviu falar. Lei de Gates, você liga e desliga várias vezes, checa todas as tomadas, deixa “esfriar”. Para pra tomar um café, uma água. Pensa em começar a gritar e puxar os cabelos. Verifica de novo os sinais vitais do aparelho, se algo se movimenta, encosta o ouvido para ver se há batimentos. Nada. Pensa de novo em começar a arrancar os cabelos da cabeça, um a um. Tenta se acalmar e aí começa a tentar lembrar tudo o que está ali dentro daquela caixinha na qual tanto confiava: o HD externo. Se desespera mais ainda. Vai querer matar o primeiro que passar na frente e te perguntar com ar cândido: “Ué, você não tinha backup?”.
Não, não tinha. Ninguém consegue ter tudo “beicapado”, consegue? Ao contrário, já utilizava o tal HD justamente porque é sabido que computadores costumam falhar, morrer, especialmente quando já têm um idade provecta, o que é o caso do meu. Aquela caixinha ao lado era a segurança. E era das boas, fixas, não dessas que ficam andando para lá e para cá, portáteis (na verdade, as mais modernas, menores, compactas). A minha ainda era robusta, ligada à eletricidade e ao cabo USB.
Anamnese: (anamnese é aquela série de perguntas que o médico faz quando te conhece, sabe?): Idade? Quase 10 anos (agora, que já é tarde, fico sabendo que duram mais ou menos em média só cinco anos); apresentou sintomas anteriores? Sim, mas nada de anormal, dois ou três momentos esparsos e momentâneos de não reconhecimento pelo sistema – lembro (também tarde demais).
Pronto. Desespero mais que total. Você acaba de ficar refém do tal mundo cibernético, uma espécie de sequestro. Precisa esfriar a cabeça, pensar, tentar resgatar a alma do defunto como se fosse numa sessão espírita, e nela você até parece rezar ainda com mais fé para que o milagre ocorra.
O final dessa parte da história é que encontrei um “hospital” de HD – e o meu aparelho nesse momento está lá, em alguma mesa fria, ligada a equipamentos, com a barriguinha aberta. Sabe-se lá o que conseguirão tirar de suas tripas e me devolverão. São especialistas nisso, não muito comuns, e por isso cobram caro, bem caro, e de acordo com a medida do que conseguem salvar. Tem de confiar neles, já que não é pouco o que podem ver. E lá vem bomba, explode no bolso. Fora já ter de antes de tudo investir em comprar outro equipamento, que possa levar até lá para receber a alma do antigo – dessa vez, um HD menor, desses portáteis, mas que pretendo manter quietinho aqui do meu lado. Uma das coisas que o técnico me falou que são mais comuns é justamente a queda. Caiu, ferrou. Ele me contou inclusive que viu vários escaparem das mãos do cliente se espatifando mais ainda bem ali na sua frente; imagino, porque a gente já chega lá mesmo muito tenso, trêmulo, suplicando ajuda. O meu já chegou lá desacordado.
Aí me ocorreu essa coisa toda de memória, a parte real, a que a gente vive, viveu, especialmente viveu, fez e aconteceu, o passado, nossa história. Quem é que guarda isso? Não é o Google, pode ter certeza, que lá tudo é meio esparso, dependente de algoritmos ou assemelhados. Quem pode fazer o nosso backup? Será sempre subjetivo? Incompleto? Nessa vida a gente vai largando os arquivos, as pastas, nos trechos que percorremos com um e outro, desorganizados.
Dá medo do tilt, que pode ocorrer como a máquina. Será que já é melhor começar a escrever uma autobiografia? A quem confiar a senha? Não me falem em nuvens, que nuvens são passageiras.
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano- Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. Já à venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon
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Canto para uma cidade surda

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Para Fernando Brant

O Minas Tênis Clube deu ao Pacífico Mascarenhas o que a cidade de Belo Horizonte deve ao Clube da Esquina; um cantinho construído pelo respeito, gratidão, admiração, reconhecimento, apreço e amor. Agora o Pacífico Mascarenhas está lá, em tamanho natural, emoldurado em ferro e aço, sentado abraçado ao violão no banco do tempo, mirando o infinito, de frente para a eternidade.

O Clube da Esquina, não; está nos corações das gerações, na vida dos casais, nos sonhos que são eternamente jovens e não nos deixam envelhecer. Está dentro de seu povo, guardado do lado esquerdo do peito, nesse cantinho que não morre mais. Pelas ruas da cidade apenas vestígios de sua existência e na esquina mais inspirada de Belo Horizonte, Minas Gerais e do Brasil, um reles rascunho de reconhecimento, um sinal de glória, uma tentativa de externar o que está vivo por dentro dos mineiros e dos povos do Planeta. Tudo muito pequeno, acanhado, modesto, bem ao modo dos mineiros.

Uma cidade jovem como Belo Horizonte, com poucos homens, nomes e história, deveria reconhecer e tratar com o devido respeito e o merecido reconhecimento aqueles que fizeram e fazem a sua história e a edifica e dignifica diante do país e do mundo inteiro. Foi isso que os meninos do Clube fizeram em uma improvável esquina de Santa Tereza, que em um dia ensolarado se sentaram na confluência do divino com o paraíso para cantar e contar as coisas de seu tempo, as coisas que traziam vivas em seus corações.

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E assim, descalços e distraídos, caminharam sobre a eternidade, fizeram revolução e mostraram que Belo Horizonte era mais que um retrato na parede, era uma cidade provinciana mas que tinha pensamento próprio, vida, talento, genialidade e que confabulava e sonhava com um novo tempo, contribuindo para a construção de um novo país. Um país que amava e cantava de forma respeitosa e despretensiosa a mulher brasileira, sem estereótipos, estigma ou idealização. Cantava apenas a mulher em sua essência, aquela que trazia um girassol no cabelo e buscava um lado ensolarado para caminhar.

O Clube da Esquina é a poesia que não se pega, que não se explica, que não se mede. Cantaram a América Latina sem alarde; convidaram a mulher negra e periférica para dividir protagonismo e palco; falaram de índios e dos rios, singrando o Brasil profundo em uma canoa etérea; foram modernos e universais cantando os sinos das igrejas e seus currais. Fundaram uma escola tendo a intuição como inspiração; moveram o mundo sem romper as montanhas. Isso tudo antes de todos, sem reivindicar paternidade ou ostentar idealismo libertário. A música pela música. A poesia na poesia, aquela que nasce e morre em seu próprio mistério. O Clube da Esquina é além de seus atores, não cabe em uma cidade, é patrimônio planetário, figura nas páginas de glória do templo da música universal. O Clube da Esquina é do mundo, é Minas Gerais.

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Para Belo Horizonte, que vive entre fumaça, buzinas e concreto, talvez a música e a história do Clube da Esquina soem hoje como dissonantes, algo que é melhor ser ignorado, silenciado e esquecido. Uma pena!

Por Petrônio Souza – Jornalista e escritor

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Amigo não é para ser oculto

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O que é amizade nesses tempos atuais? Nas redes sociais, temos e chamamos de amigos pessoas que nem conhecemos, pior, muitas que jamais conheceremos. Fazemos e desfazemos esses laços apenas com um clique, sem dor. Agora é hora do tal amigo secreto, quando pessoas que se odeiam se sorteiam e pensam seriamente em dar presentes mortais
Por MARLI GONÇALVES – Fico imaginando umas caixas maravilhosas embaladas com laços e contendo aranhas e serpentes peçonhentas, venenos, mágoas, respostas não dadas durante todo o ano. Ou presentes escolhidos entre os piores, coisas sem uso, presentes ganhos e guardados para serem repassados para a frente na primeira oportunidade. Imaginem esse ano, com a crise de grana e com a cisão política que se estabeleceu entre nós e que deve estar sendo usada justamente para romper relações distanciadas e já estremecidas por outros motivos. Como chamar de amigos? Como deverá estar sendo o tal amigo secreto deste ano, nas firmas e famílias? Desde criança considero o Natal como uma das datas do ano onde as pessoas mais falseiam umas com as outras.
Como considero amizade de verdade algo raro e sagrado, estranho o nome dado à essa tradição que para mim tem a melhor definição de nascimento não na Grécia, ou num sei aonde, mas realmente no mundo, durante a Depressão de 1929. Ninguém tinha dinheiro ou condições para presentear todos – melhor sortear, dividir essa lista – para mim, veio mesmo daí. Não que seja má ideia, mas que é momento saia justa, ah, isso é. Amigo secreto, oculto, invisível.
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Adoro também o “tabelamento” de preços de presente adotado. A quantas anda esse ano? 50 reais? 100 reais? Precisa de nota fiscal para quem quiser trocar o bagulho? “Achei que era sua cara…” – uma das maiores ofensas.
Com as mudanças econômicas ocorridas, desemprego absurdo, home office, trabalho esporádico, empreendedorismo individual devem estar sendo bem poucas pessoas que ainda manterão a tal tradição de, rezando, sortear o nome de alguém, e, rezando, esperar que alguém de bom gosto e posses sorteie o seu. Vivemos cada vez mais isolados.
Sou pessoa de muitos amigos. Sou pessoa de pouquíssimos amigos.
Ambas as afirmações são absolutamente verdadeiras. Mas a segunda trata mais da vida real e considero amigo coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, no cérebro, na vida. Estejam eles perto ou longe, em outro continente, como é o caso de uma família de amigos que se mudou para Madri, e porque esse país não dá lugar a gente boa.
Amigos. Sempre. Vivos ou mortos, sempre inesquecíveis. Dos quais os melhores presentes serão sempre as lembranças de momentos vividos juntos. Ou objetos que significam algo que só os dois lados compreenderão, porque é amigo com amigo, cada um com outro, exclusivo; grupos de amigos é outra coisa, há de convir.
Pensei nisso de forma especial porque lembrei do que considero uma grande coincidência. Tive um “Melhor Amigo”, que perdi em 1993. Dele, de quem lembro diariamente, guardo os anjos que tanto adorava e o hábito de jamais deixar de ter flores em casa, assim como a sua generosidade e caráter. Ele era nascido a 12 de dezembro, Sagitário, por acaso, signo complementar ao meu, Gêmeos. Hoje, tenho como um grande amigo uma outra pessoa de outro lugar, outras histórias e uma compreensão mútua absurda, só possível numa relação sincera e verdadeira. Nascido em 12 de dezembro, também. Significa? Coincidência? Pode ser.
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Com esse texto pensei em ser presente de aniversário para ele, que mora longe, uma boa lembrança, e o que posso dar no momento. Acabei pensando que amigo mesmo, para assim ser chamado mesmo, não pode ser oculto, secreto, tem de ser declarado.
Aliás, quantos amores garantiríamos que seriam, depois do fim, nossos amigos eternos quando passadas as relações e que hoje, eles sim, viraram apenas pó, invisíveis, ocultos e esquecidos; em muitos casos, inclusive, inimigos?
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano- Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. Já à venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon
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