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Especial

Ex-exilado na ditadura relembra isolamento e medo em Paris

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Alencastro frequentava reuniões de exilados em Paris na casa da socióloga Violeta Arraes.

O historiador e cientista político catarinense Luiz Felipe de Alencastro ainda lembra de cor um dos endereços que mais frequentou durante o tempo em que ficou exilado em Paris.

Em uma rua situada no charmoso bairro do Marais, Alencastro era recebido com outros expatriados na casa da socióloga Violeta Arraes, irmã de Miguel Arraes, governador de Pernambuco deposto pelos militares em 1º de abril de 1964.
Também presa e expulsa do país, Violeta ficou conhecida como “Rosa de Paris” em razão da acolhida e apoio que deu a inúmeros exilados políticos na França, inclusive chilenos.
Sua casa se tornou ponto de encontro de intelectuais e ativistas políticos e era lá que Alencastro se reunia com nomes como Fernando Henrique Cardoso e Celso Furtado.
“A Violeta tinha ligações com a esquerda católica francesa. Sua casa era uma central de apoio. Ela também tinha contatos com advogados franceses e abrigava pessoas que não tinham contatos na França”, conta Alencastro, que ia “tomar sopinhas” no apartamento da socióloga.
Violeta Arraes também estudou psicologia e ajudou, como psicoterapeuta, muitos brasileiros que haviam sido torturados, conta Alencastro. Ela também se tornou, posteriormente, uma referência para a divulgação das artes brasileiras na Europa.
Foi a partir desses encontros que surgiu a ideia de montar a Frente Brasileira de Informações, formada por um grupo de exilados unidos na missão de denunciar ao mundo as torturas cometidas pela ditadura no Brasil.
Acompanhada de perto por Alencastro, a “Operação Pororoca”, como também ficou conhecida a Frente, publicava boletins que eram enviados a personalidades e intelectuais em todo o mundo.
“A agência dos Correios na praça da Bolsa de Valores era a única em Paris que tinha listas telefônicas do mundo inteiro. O pessoal copiava os endereços de pessoas com títulos de doutores e professores em vários países e também responsáveis de organizações internacionais de direitos humanos”, diz Alencastro.

Isolamento

Violeta Arraes com marido e amigosVioleta Arraes (à esq.) com o marido, a cantora Maria Betânia e uma amiga em sua casa

Alencastro tinha contato regularmente com outros exilados, mas isso não impediu que sentisse um “grande isolamento” na França.
“Só fui saber que meu pai havia falecido um mês depois da sua morte. Naquela época não era fácil fazer ligações internacionais e tínhamos pouquíssimas notícias do Brasil”, relembra.
Ele costumava ir ao escritório da Varig, na avenida Montaigne, para ler os jornais de “quatro ou cinco dias atrás”.
Os brasileiros preferiam não se encontrar muito em bares “para não chamar a atenção”, diz Alencastro, mesmo que às vezes isso ocorresse em alguns cafés da região do Quartier Latin.
Mesmo a milhares de quilômetros do Brasil, era preciso continuar tomando precauções para escapar da ditadura militar. A partir de 1966, quando se exilou na França, adotou o pseudônimo “Júlia Juruna” para assinar artigos sobre política brasileira, publicados pelo jornal francês Le Monde Diplomatique.
“Nenhum homem nega sua identidade masculina. Ninguém pensaria que Júlia Juruna poderia ser um homem”, sorri Alencastro, que hoje leciona história e é diretor do Centro de Estudos do Brasil e do Atlântico Sul na prestigiosa Universidade Sorbonne.
Em março de 1964, Alencastro integrava o diretório estudantil da Universidade de Brasília (UnB), uma das instituições acadêmicas mais visadas pelos militares.

Fernando Henrique CardosoFHC em um dos encontros na casa de Violeta Arraes

Ele foi alvo de inúmeros inquéritos militares, sendo intimado várias vezes a depor em uma caserna do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP). Nunca foi torturado, ao contrário de outros membros do diretório estudantil da UnB que foram assassinados durante a ditadura.
Aconselhado por amigos a deixar o Brasil, Alencastro chegou à França aos 20 anos após conseguir uma bolsa do governo francês para estudar ciências políticas em Aix-en-Provence, no sul do país.
Ele foi acolhido em Paris pelo também exilado Raul Ryff, secretário de imprensa do governo de João Goulart. Após 1970, ele se instalou na capital francesa e passou a estudar na Universidade de Nanterre, a mesma onde o também exilado Fernando Henrique Cardoso deu aulas.
Ele chegou a ficar um ano sem passaporte porque a embaixada brasileira em Paris se recusava a renová-lo. “Não quis pedir asilo político porque se fosse negado teríamos de deixar a França”, conta.
Depois, por pressão das autoridades francesas junto à embaixada brasileira, Alencastro conseguiu renovar o documento.

Polícia secreta

Segundo Alencastro, após a chegada de Valéry Giscard d’Estaing à Presidência da França, em 1974, a situação ficou mais fácil para os exilados brasileiros no país. “Com a chegada de Giscard ao poder, a polícia ficou menos em cima dos exilados em geral. O Parlamento francês também tinha deputados que apoiavam os exilados chilenos e sul-americanos”, afirma.
Antes, no entanto, a situação era pior. Durante o mandato de Georges Pompidou, entre 1969 e 1974, o governo francês, a pedido dos militares brasileiros, havia proibido a entrada de Miguel Arraes na França.
Em certa ocasião, o delegado Sérgio Fleury, que torturou opositores ao regime militar no Brasil, realizou uma visita a Paris. “A Violeta nem foi dormir em casa. Ficou com medo da presença do Fleury aqui”, relembra Alencastro.
Também foi durante o governo de Pompidou que o general Paul Aussaresses, célebre torturador durante a guerra francesa na Argélia, nos anos 50 e 60, se tornou, em 1973, adido militar da França no Brasil, onde ensinou técnicas de tortura contra os opositores ao regime.
Aussaresses, que dizia ser um “grande amigo” do ex-presidente João Batista Figueiredo (na época ministro-chefe da Casa Militar do Brasil), ensinou técnicas de tortura no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus, criado em 1964.
Os brasileiros também se preocupavam, até o início dos anos 70, com a polícia secreta portuguesa infiltrada pelas ruas de Paris à busca de quem havia fugido do serviço militar em Portugal, que estava em guerra contra suas colônias na África.
“Havia uma paranoia lusófona nessa época em Paris”, diz o historiador.
Por isso, os brasileiros evitavam se reunir em lugares públicos para que suas conversas não fossem entendidas pela polícia secreta portuguesa, afirma Alencastro.

Duas levas

Ele conta também que houve duas fases no exílio dos brasileiros na França. Quando ele chegou, em meados dos anos 60, havia um “circuito institucional” de exilados mais velhos e ligados à política e aos meios acadêmicos, afirma.
Depois, com o início da luta armada no Brasil e o golpe de Estado no Chile, em 1973, muitos jovens se exilaram na França.
Calcula-se que no início dos anos 70 havia 5 mil exilados brasileiros no país.
Nessa época, diz ele, começou a haver divergências políticas entre os exilados, já que os membros da luta armada estavam mais ligados à extrema esquerda.
Alencastro só voltou a morar no Brasil, por motivos pessoais, em 1986. Mas desde a Anistia, em 1979, já havia começado a viajar regularmente ao país.
“Voltei a morar no Brasil em um momento muito interessante, principalmente no Congresso, com as discussões da assembleia nacional Constituinte, que criou a Constituição de 1988”, afirma.
Ele diz ter voltado em uma situação “privilegiada” porque foi trabalhar no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) ao lado de intelectuais como José Arthur Giannotti, Paul Singer e FHC.
Alencastro retornou à França em 1999 como professor de História do Brasil na Sorbonne, onde é atualmente diretor do Centro de Estudos do Brasil e do Atlântico Sul. Pretende se aposentar em breve de quer voltar ao Brasil, onde dará aulas na Fundação Getúlio Vargas.
BBC

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Especial

DW: Candidatos a presidente partem para o ataque em debate no SBT

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No encontro mais ácido desde o início da campanha, Marina e Ciro escolhem Haddad como principal alvo de críticas. Alckmin troca farpas com Meirelles e Boulos. Ausente, Bolsonaro foi poupado.

DW – A dez dias do primeiro turno, oito candidatos à Presidência protagonizaram no início da noite desta quarta-feira (26/09) o debate mais tenso e ácido da campanha eleitoral. Fernando Haddad (PT), que vem crescendo nas pesquisas, se tornou alvo de críticas de Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Geraldo Alckmin (PSDB) trocou farpas com Henrique Meirelles (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL). Cabo Daciolo (Patriota), por sua vez, que esteve ausente do último debate, provocou risos ao exortar Meirelles a aceitar Jesus.

Organizado pelo pela Folha de São de Paulo, UOL e SBT, o debate não contou com a participação do líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL), que continua internado após sofrer um ataque à faca no início do mês. Ausente, o candidato foi pouco lembrado pelos adversários presentes, que mais afiados do que em debates anteriores, prefeririam trocar ataques entre si e criticar o governo Michel Temer para se cacifar para uma vaga no segundo turno.

Esse também foi o segundo encontro entre os presidenciáveis que contou com a participação de Haddad, que assumiu oficialmente a candidatura petista no dia 11 de setembro.

Logo no início do debate, num segmento que previa perguntas entre os candidatos, Boulos provocou Alckmin. O líder dos sem-teto afirmou que a educação em São Paulo piorou durante o governo tucano e emendou com a pergunta “cadê o dinheiro da merenda?”, em referência a um escândalo de desvios em compra de alimentos para escolas paulistas.

Boulos ainda afirmou que “o sentimento é que o senhor [Alckmin] é um Sérgio Cabral que não está preso”. Em resposta, Alckmin disse que era ficha limpa e nunca invadiu “propriedade de ninguém”.

Em seguida, foi a vez do Cabo Daciolo provocar Ciro Gomes, que foi internado brevemente nesta semana por causa de um problema na próstata e passou boa parte do debate sentado. Daciolo aproveitou para devolver uma tirada irônica dita por Ciro ao cabo no primeiro debate eleitoral entre os presidenciáveis, em agosto. “A democracia é uma delícia. Você ficou doente e foi correndo para o Sírio-Libanês. Por que o senhor não foi para o hospital público?”.

“Eu sou daqueles poucos que podem pagar plano de saúde e não sou um demagogo para dizer o oposto”, respondeu Ciro.

O terceiro embate ocorreu entre Haddad e Marina Silva, que ficaram jogando para o colo do outro a responsabilidade pela “paternidade” do impopular presidente Michel Temer (MDB). Inicialmente, o petista afirmou que a candidata da Rede ajudou a colocar Temer no poder ao apoiar o impeachment. “Temer traiu a Dilma e não conseguiria chegar lá sem a ajuda de vocês”, disse Haddad.

Marina devolveu apontando que a escolha de Temer como vice foi do PT. “Engraçado você falar de impeachment depois de pedir bênção ao Renan Calheiros (MDB), que apoiou o impeachment. São dois pesos e duas medidas. O PT faz o discurso dos trabalhadores e leva o país ao buraco com o Temer”, acrescentou.

Haddad também trocou farpas com Ciro Gomes. Quando o ex-governador cearense foi questionado por um jornalista se o seu governo contaria com a presença do PT, Ciro respondeu “Se puder governar sem o PT, eu prefiro”. Segundo ele, o PT se tornou uma “estrutura odienta, que acabou criando o Jair Bolsonaro, essa aberração”. O candidato afirmou ainda que o conflito entre PT e Bolsonaro iria levar o país para o “fundo poço”.

Ciro disse também que pretende “destruir” o MDB de Temer. “No meu governo, o MDB será destruído pelas vias democráticas.” Ele, no entanto, fez a ressalva de que considera existir alguns bons nomes no partido, como o senador Roberto Requião. Haddad não gostou do comentário de Ciro sobre o PT e lembrou que o ex-governador o convidou para ser o vice na sua chapa. “Ele chamava esta chapa de dream team”, ressaltou o petista.

Outros embates

Outro embate ocorreu entre Alckmin e Meirelles. O ex-ministro da Fazenda disse ao tucano que “suas linhas do metrô demoraram 20 anos para ficar prontas” e emendou com a pergunta “esse é o tipo de eficiência que você pretende levar pra Brasília?”. Na réplica, Meirelles elogiou a sua própria gestão à frente da Fazenda.

Alckmin então aproveitou para criticar a gestão do ex-ministro. “Alguma coisa deu errado. O país não vai crescer o que deveria, estamos com 13 milhões de desempregados”, disse.

Meirelles ainda teve uma curiosa disputa com o Cabo Daciolo. O candidato do Patriota afirmou acreditar que o ex-ministro e os banqueiros ainda vão “aceitar o senhor Jesus”, provocando risos de outros candidatos. Meirelles respondeu “nunca fui banqueiro, fui bancário”, o que provocou mais risos, desta vez da plateia.

Durante uma troca de perguntas com Boulos, Daciolo ainda aproveitou o tempo para mandar uma declaração de amor para sua mãe. “Te amo, mãe. Te amo, varoa!”, disse.

“Daciolo, a gente já estava com saudade de você aqui no debate”, respondeu Boulos.

Alvaro Dias (Podemos), por sua vez, também atacou Haddad e chamou o petista de “representante do preso em Curitiba”. O senador paranaense ainda chamou o PT de “organização criminosa” e recordou a morte do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel.

Mulheres

Além das trocas de farpas, em busca de votos, o debate também foi marcado por falas dos candidatos dirigidas ao eleitorado feminino, motivadas pela alta rejeição que o líder Bolsonaro enfrenta por essa parcela da população.

Ciro disse que metade dos ministérios num eventual governo seu será ocupada por mulheres. Marina lembrou que é a única candidata mulher entre os principais postulantes ao Planalto. “Temos aqui sete homens e uma mulher pobre, humilde, disputando com eles. Espero, contando com o seu voto, estar no segundo turno. Quero provar que uma mulher de origem humilde pode governar, sim, o Brasil”, disse. Daciolo, por sua vez, mandou um recado mais explícito: “Mulheres brasileiras, amo vocês”.

O debate ocorreu pouco depois da divulgação de uma nova pesquisa Ibope, que apontou que Bolsonaro segue na liderança, mas estagnado com 27%. Haddad apareceu em segundo, com 21%. Ciro e Alckmin apareceram estacionados com 12% e 8%, respectivamente. Marina, por sua vez, está em quinto lugar, com 6%.

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Entrevista

Especialista descarta possibilidade de renovação política em outubro

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Campanha é cara, e dinheiro lícito ficará com caciques partidários

Os resultados das eleições de outubropodem frustrar quem espera mudanças na política nacional. Partidos hegemônicos e políticos tradicionais tendem a se beneficiar de um sistema eleitoral que é pouco permeável à renovação, diz o economista e doutor em direito Bruno Carazza.

Autor do livro Dinheiro, Eleições e Poder, Carazza destaca que as campanhas são caras e que, como já ocorreu em outros pleitos, o financiamento contará com dinheiro ilegal de empresas – em esquemas já vistos nas investigações da Operação Lava Jato. Até mesmo o dinheiro lícito, disponível no fundo de assistência financeira aos partidos políticos e no fundo de financiamento eleitoral, será usado pelos dirigentes partidários para se reelegerem.

No livro, editado pela Companhia das Letras, o economista cruza dados sobre as doações eleitorais, obtidos em delações premiadas, com projetos, votações e atuação de parlamentares – muitos dos quais vão tentar a reeleição em outubro.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista de Bruno Carazza à Agência Brasil:

Agência Brasil: Vamos começar com uma pergunta que o senhor faz em seu livro. “Como criminosos conseguem se reeleger, mandato após mandato, mesmo sendo bombardeados com denúncias de corrupção?”

Bruno Carazza: Temos um sistema eleitoral que favorece pessoas bem conectadas com quem tem dinheiro. Qualquer candidato que pretenda ser eleito precisa fazer uma campanha personalista e cara. Tornar-se conhecido em regiões muito grandes, como são os estados, custa muito dinheiro. Isso acaba fazendo com que os candidatos se aproximem de quem tem dinheiro. Assim, começa na origem um vício de dependência entre o candidato e o doador, seja ele pessoa jurídica (uma empresa), como era na regra antiga, seja ele pessoa física, como é hoje. Outro fator é que temos nas legendas castas avessas à alternância de poder, grupos que chamamos “de caciques partidários”, que concentram poder e dinheiro, e dão as cartas na política partidária e na política parlamentar, depois de eleitos. Além disso, o foro privilegiado é um mecanismo que atrai alguns tipos de políticos. As garantias e regalias que detêm acabam fazendo com que esses personagens se perpetuem na política brasileira.

Agência Brasil: E as alianças políticas e partidárias?

Carazza: [As alianças] ocorrem muito menos por ideologia e muito mais por razão pragmática. Os partidos têm pouca identidade programática. Isso no Brasil é muito difuso. Os partidos procuram não se comprometer com nada para não se indispor com o eleitorado. As propostas acabam sendo bastante fluidas. Há exceções à direita e à esquerda, mais isso é regra em nosso sistema partidário.

Agência Brasil: As mudanças implementadas com o financiamento dos partidos e da campanha eleitoral eram ideias antigas e foram capturadas pelos “caciques políticos”, como disse. Seu estudo é sobre um sistema que sabe se preservar e se perpetuar?

Carazza: Os grandes doadores costumavam procurar os partidos mais de centro e mais de direita, e os partidos à esquerda recebiam poucos recursos. O financiamento público era desejado para equilibrar esse jogo. Quando veio o petrolão [como ficou conhecido um esquema de corrupção e desvio de fundos na Petrobras], a reação foi proibir a doação feita por empresas. O sistema do financiamento privado foi, então, desarticulado. Num instinto de sobrevivência, os partidos se uniram e começaram a abraçar a ideia. Isso foi perfeito para as estratégias dos caciques partidários, muito deles inclusive envolvidos na Lava Jato [operação em que a Polícia Federal investiga esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina]. Assim tornou-se um grande instrumento para estratégias de tentar a reeleição, perpetuar-se no poder e também protelar condenações.

Agência Brasil: A disponibilidade de fundos públicos impede que haja dinheiro empresarial na campanha? Essa verba não declarada não pode financiar as eleições via caixa dois?

Carazza: Não tivemos, após a Lava Jato, a despeito de todas delações de esquemas gigantescos, envolvendo todos os partidos, nenhuma mudança na legislação para coibir o caixa 2, no sentido de aumentar penas e facilitar a investigação de crimes de corrupção, de propina e de financiamento ilícito na eleição. Proibiu-se a doação de empresas, mas sem a contrapartida de coibir a doação ilícita. Também não se avançou para tornar as eleições mais baratas. A lógica do sistema não mudou. O sistema eleitoral continua demandando muito dinheiro. Esse dinheiro virá de algum lugar. Além disso, temos um terceiro elemento: não foi desarmada nenhuma engrenagem desse sistema que faz com que o Estado seja uma mina de oportunidades para o setor privado. Então, temos, de um lado, políticos que vão continuar dependendo de dinheiro para se eleger e, de outro lado, uma série de empresas que têm muito interesse no que o Estado oferece, e têm todo interesse em suprir a demanda dos políticos. Isso não vai ser feito pelas vias oficiais. Um dos efeitos é que o que antes era feito às claras, e a imprensa podia investigar, vai para o subterrâneo de novo, como era na época do PC Farias [Paulo César Farias, tesoureiro de campanha do então presidente Fernando Collor, acusado de envolvimento no esquema de corrupção que levou ao impeachment]. Não tem nenhuma garantia de que as empresas não vão doar como caixa 2, até porque não temos mecanismos para punir isso de forma mais efetiva.

Agência Brasil: Você citou o foro privilegiado como um dos mecanismos que atraem políticos com problemas na Justiça. Mas, quando saem do foro, não há o risco de os processos regredirem várias casas e de os políticos não irem a julgamento?

Carazza: Precisamos de um processo judicial que seja mais célere, mais equilibrado, para que esses políticos sejam punidos de modo efetivo e de forma rápida. Só acabar com o foro privilegiado não resolve o problema. Temos que pensar no sistema para limitar a possibilidade de recursos protelatórios para que tenha decisões mais efetivas e mais rápidas.

Agência Brasil: Nesse sentido, a Operação Lava Jato é uma referência, ou um caso muito isolado para virar paradigma?

Carazza: Ela tem papel histórico e teve efeito positivo ao usar instrumentos modernos de persecução, como as delações premiadas. Obviamente, tivemos exagero na aplicação de um ou outro instituto. A Lava Jato teve o efeito de ter mobilizado órgãos de controle, o Ministério Público e a Polícia Federal.

Agência Brasil: Outubro pode ser frustrante para quem se entusiasmou com a Lava Jato e espera uma grande renovação da política? Que ambiente o próximo presidente deve encontrar para governar?

Carazza: Cada vez mais, estamos aprofundando esse modelo. Em vez de alterá-lo para ser mais positivo, para tornar a política mais inclusiva e mais aberta. Estamos observando a classe política colocando em marcha uma estratégia muito definida e muito articulada de perpetuação no poder como instinto de sobrevivência. Ao que tudo indica, não teremos grandes renovações. E teremos novo presidente eleito tendo que jogar o jogo como ele sempre foi jogado. Não vejo chances de alterar esse nosso presidencialismo de coalizão, que acabou se tornando presidencialismo de cooptação.

Edição: Nádia Franco

Por Gilberto Costa 

ABr

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