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Especial

Kennedy cogitou ação militar contra Goulart

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Em abril de 1962, o presidente Kennedy dos EUA recebeu o presidente João Goulart no salão oval da Casa Branca.

Em pouco mais de um ano, durante a Presidência de John F. Kennedy, as relações americanas com João Goulart foram do “ápice” à deterioração total, ao ponto de os Estados Unidos chegarem ao fim de 1963 cogitando uma intervenção militar no Brasil.
Porém, a veloz resignação de Jango à sua própria queda meses depois poupou os brasileiros de verem tropas americanas desembarcando em território nacional – uma ideia que soava tão escandalosa que os próprios americanos relutavam em abraçar, indicam os arquivos da época.
A possibilidade estava na manga caso houvesse “uma clara evidência de intervenção do bloco soviético ou de Cuba do outro lado”, precisou o então embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, em um plano de contingência discutido com o Departamento de Estado em dezembro de 1963 e obtido pelo historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A hipótese de uma ação armada também foi assunto de conversa entre Gordon e Kennedy em Washington em outubro de 1963, segundo uma gravação revelada pelo jornalista Elio Gaspari na reedição de A Ditadura Envergonhada.
Segundo o registro, o então presidente perguntou ao embaixador se a situação no Brasil estava “indo para onde deveria”, ou se era “aconselhável que façamos uma intervenção militar”.

‘Nova Cuba’

As desconfianças de Kennedy em relação a Jango se exacerbaram entre fins de 1962 e fins de 1963, período em que os Estados Unidos se preocupavam em “evitar uma nova Cuba na América Latina”.
Evitar que o Brasil de Jango “deslizasse” para o comunismo virou um “mantra” em Washington, disse à BBC Brasil o historiador Peter Kornbluh, da organização National Security Archives, que pressiona pela desclassificação de documentos históricos do governo americano.

Biblioteca JFK, arquivo digitalAs relações entre Kennedy e Jango foram se deteriorando com o passar do tempo

O “ápice” da relação Kennedy-Jango fora durante a crise dos mísseis, em outubro de 1962, quando a inteligência americana revelou que a União Soviética estava posicionando mísseis na ilha comunista de Cuba.
A pedido de Kennedy, Goulart enviou um emissário à ilha comunista para servir de intermediário secreto entre Havana e Washington, segundo um detalhado estudo de James Hershberg, historiador da Universidade George Washington.
O emissário brasileiro, general Albino Silva, chegou em Havana quando o líder soviético Nikita Kruschev já anunciara a retirada dos mísseis de Cuba.
Mas o episódio é interpretado na historiografia como sinal do “benefício da dúvida” que Kennedy estendia a Goulart. Porém, no fim, serviu para reforçar as desconfianças do norte do continente.
Hershberg diz que a Casa Branca achou que Jango “virava a casaca” em temas importantes conforme sua conveniência.
Kornbluh explica que a Casa Branca não gostou da recusa de Jango em se se alinhar aos Estados Unidos em um voto contra Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA) por ter aceitado esses mísseis.
Em vez disso, Jango defendera uma zona livre de armas nucleares na América Latina. “No final, Kennedy se convence de que, se Goulart não estava com eles, estava contra eles”, disse o historiador.

Operação Brother Sam

O líder brasileiro seria deposto apenas meses antes da reunião da OEA em julho de 1964 que expulsou Cuba e resultou no seu isolamento do hemisfério.

Biblioteca JFK, arquivo digitalEm visita à Casa Branca, Jango e o general Amaury Kruel, que acabaria aderindo ao golpe que derrubou o presidente em 1964

Entre a crise dos mísseis e o golpe de 64, as relações Estados Unidos-Brasil “se deterioraram acentuadamente”, escreve Hershberg, com Kennedy segredando a um visitante que a situação no Brasil lhe preocupava “mais que Cuba”.
Arquivos digitalizados pela biblioteca JFK mostram que, cinco dias antes do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o embaixador Lincoln Gordon recomendava ao presidente que não incluísse o Brasil em um giro por países latino-americanos que faria no início de 1964.
Gordon mencionava o baixo comprometimento de Goulart com o esforço regional de integração de Kennedy, a Aliança para o Progresso, e sua aversão a investimentos estrangeiros.
A antipatia do embaixador – que identificava tendências peronistas e ditatoriais em Goulart, apesar de ser questionado pelo Departamento de Estado em ocasiões – é bem documentada.
Hoje os historiadores também sabem que a chamada operação Brother Sam – o envio de uma força naval composta de petroleiros, destróieres e o prestigioso porta-aviões USS Forrestal para a costa brasileira – foi planejada durante o governo Kennedy e executada no período de seu sucessor, Lyndon B. Johnson.
A frota levaria combustíveis, armamentos e gases para controle de multidão para reforçar o arsenal das forças anti-Goulart.

‘Cara de legitimidade’

Durante anos, o regime militar brasileiro e o governo americano sustentaram a versão de que os Estados Unidos apenas reconheceram um golpe “made in Brazil”, sem interferência dos grande vizinho do norte. Quando a operação Brother Sam veio à tona, Gordon afirmou que se tratava apenas de demonstração de força.
Porém, no plano de contingência obtido pelo professor Carlos Fico, o embaixador previra que os Estados Unidos poderiam apoiar os conspiradores “de forma encoberta ou mesmo aberta, particularmente (apoio) logístico (gasolina, óleos e lubrificantes, alimentos, armas e munição)”.
“A ideia era fazer uma espécie de ponte aérea entre o porta-aviões e uma região de São Paulo para a entrega dessas munições e armas. Como é que iriam fazer isso essa entrega sem desembarcar?”, questiona o professor. “Seria impossível.”
Ao mesmo tempo, os documentos indicam que o embaixador americano se preocupava com a “cara de legitimidade” que permitiria ao governo americano reconhecer o novo regime no Brasil.
Em um telegrama enviado na tarde de 31 de março, por exemplo – disponível nos Arquivos Nacionais americanos –, Lincoln Gordon informa o Departamento de Estado sobre “movimentos militares em Minas Gerais totalmente apoiados pelo governador Magalhães Pinto”.
“Tomei ação de repassar aos principais governadores a mensagem sobre (a) importância vital (de) cores de legimitidade”, afirma o embaixador.
“Meus intermediários estão se informando sobre como (o) grupo de governadores propõe lidar com (a) questão crítica (do) manto de legitimidade e (a) posição enquanto defensores da constituição (…) se não houver apoio do Congresso.”
A pesquisa de Carlos Fico revelou uma singular semelhança entre as ações ocorridas em Minas e o cenário que o governo americano considerava mais “desejável”.
Pouco antes do golpe, Magalhães Pinto nomeara um secretariado especial, “como se fosse um ministério”, e designou inclusive uma espécie de “chanceler”, Afonso Arinos, “para obter no exterior o reconhecimento do governo alternativo”, disse Fico à BBC Brasil.
Correspondendo-se com Washington em dezembro de 1963, Gordon avalia que “se uma parte significativa do território nacional ficasse em poder de forças democráticas, a formação de um governo provisório para requisitar ajuda seria altamente desejável”.
“Ora, as ações de Magalhães Pinto são exatamente o que estava previsto no plano de contingência americano”, raciociona o historiador. “Eu não tenho dúvida de que no futuro, à medida que os documentos sejam liberados, essa articulação (dos Estados Unidos) com Magalhães Pinto aparecerá.”

‘Grande lacuna’

Os historiadores acreditam que, no futuro, o dedo americano também pode aparecer em outros episódios que precederam a deposição de Goulart.
O contato brasileiro dos militares americanos – representados no Brasil pelo adido militar Vernon Walters – era o general José Pinheiro de Ulhôa Cintra. Ulhôa, Walters e Castello Branco lutaram lado a lado na Itália durante a 2ª Guerra Mundial. Sabe-se pouco sobre a influência dessa proximidade nos acontecimentos.
Mas “a grande lacuna” são os documentos operacionais americanos no Brasil, avalia Peter Kornbluh.
“Não temos nenhum documento operacional da CIA entre 1960 e 1964 desclassificado. Faltam os telegramas, os planos da estação (da CIA) no Rio, os relatórios de atividades”, queixa-se.
Em suas memórias, o ex-agente da CIA Phillip Agee afirmou que a agência foi responsável por milhões de dólares que financiaram candidatos anti-Goulart nas eleições legislativas e para governador realizadas em 1962.
Entretanto, Kornbluh diz acreditar que “existe influência da CIA que não conhecemos, de fomento, agitação, infiltração em sindicatos, operações políticas clandestinas e possivelmente a manutenção de militares na sua folha de pagamento”.
“Falta um capítulo inteiro dessa história”, diz Kornbluh.

Apoio decisivo

Deposto Goulart, Washington reconheceu o regime militar tão rapidamente que até levantou no resto do mundo as suspeitas de que estivesse diretamente envolvido, conta Kornbluh.
Tanto que, no golpe contra o chileno Salvador Allende, em 1973, a Casa Branca transmitiu seu apoio ao general Pinochet, mas esperou um “intervalo decente” antes de manifestar publicamente seu reconhecimento.
Para Carlos Fico, há elementos para crer que Jango tivesse ideia do comprometimento americano com os conspiradores. Anos depois, no exílio,o líder deposto disse que não reagiu para evitar uma “sangueira” certa.
“A gente não sabe o que poderia ter acontecido se Goulart tivesse reagido. Talvez tivesse conseguido dispersar as tropas golpistas”, conjectura o historiador. “Mas certamente, quando soube do apoio norte-americano, ele teve um baque.”
BBC Brasil

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Especial

DW: Candidatos a presidente partem para o ataque em debate no SBT

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No encontro mais ácido desde o início da campanha, Marina e Ciro escolhem Haddad como principal alvo de críticas. Alckmin troca farpas com Meirelles e Boulos. Ausente, Bolsonaro foi poupado.

DW – A dez dias do primeiro turno, oito candidatos à Presidência protagonizaram no início da noite desta quarta-feira (26/09) o debate mais tenso e ácido da campanha eleitoral. Fernando Haddad (PT), que vem crescendo nas pesquisas, se tornou alvo de críticas de Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Geraldo Alckmin (PSDB) trocou farpas com Henrique Meirelles (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL). Cabo Daciolo (Patriota), por sua vez, que esteve ausente do último debate, provocou risos ao exortar Meirelles a aceitar Jesus.

Organizado pelo pela Folha de São de Paulo, UOL e SBT, o debate não contou com a participação do líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL), que continua internado após sofrer um ataque à faca no início do mês. Ausente, o candidato foi pouco lembrado pelos adversários presentes, que mais afiados do que em debates anteriores, prefeririam trocar ataques entre si e criticar o governo Michel Temer para se cacifar para uma vaga no segundo turno.

Esse também foi o segundo encontro entre os presidenciáveis que contou com a participação de Haddad, que assumiu oficialmente a candidatura petista no dia 11 de setembro.

Logo no início do debate, num segmento que previa perguntas entre os candidatos, Boulos provocou Alckmin. O líder dos sem-teto afirmou que a educação em São Paulo piorou durante o governo tucano e emendou com a pergunta “cadê o dinheiro da merenda?”, em referência a um escândalo de desvios em compra de alimentos para escolas paulistas.

Boulos ainda afirmou que “o sentimento é que o senhor [Alckmin] é um Sérgio Cabral que não está preso”. Em resposta, Alckmin disse que era ficha limpa e nunca invadiu “propriedade de ninguém”.

Em seguida, foi a vez do Cabo Daciolo provocar Ciro Gomes, que foi internado brevemente nesta semana por causa de um problema na próstata e passou boa parte do debate sentado. Daciolo aproveitou para devolver uma tirada irônica dita por Ciro ao cabo no primeiro debate eleitoral entre os presidenciáveis, em agosto. “A democracia é uma delícia. Você ficou doente e foi correndo para o Sírio-Libanês. Por que o senhor não foi para o hospital público?”.

“Eu sou daqueles poucos que podem pagar plano de saúde e não sou um demagogo para dizer o oposto”, respondeu Ciro.

O terceiro embate ocorreu entre Haddad e Marina Silva, que ficaram jogando para o colo do outro a responsabilidade pela “paternidade” do impopular presidente Michel Temer (MDB). Inicialmente, o petista afirmou que a candidata da Rede ajudou a colocar Temer no poder ao apoiar o impeachment. “Temer traiu a Dilma e não conseguiria chegar lá sem a ajuda de vocês”, disse Haddad.

Marina devolveu apontando que a escolha de Temer como vice foi do PT. “Engraçado você falar de impeachment depois de pedir bênção ao Renan Calheiros (MDB), que apoiou o impeachment. São dois pesos e duas medidas. O PT faz o discurso dos trabalhadores e leva o país ao buraco com o Temer”, acrescentou.

Haddad também trocou farpas com Ciro Gomes. Quando o ex-governador cearense foi questionado por um jornalista se o seu governo contaria com a presença do PT, Ciro respondeu “Se puder governar sem o PT, eu prefiro”. Segundo ele, o PT se tornou uma “estrutura odienta, que acabou criando o Jair Bolsonaro, essa aberração”. O candidato afirmou ainda que o conflito entre PT e Bolsonaro iria levar o país para o “fundo poço”.

Ciro disse também que pretende “destruir” o MDB de Temer. “No meu governo, o MDB será destruído pelas vias democráticas.” Ele, no entanto, fez a ressalva de que considera existir alguns bons nomes no partido, como o senador Roberto Requião. Haddad não gostou do comentário de Ciro sobre o PT e lembrou que o ex-governador o convidou para ser o vice na sua chapa. “Ele chamava esta chapa de dream team”, ressaltou o petista.

Outros embates

Outro embate ocorreu entre Alckmin e Meirelles. O ex-ministro da Fazenda disse ao tucano que “suas linhas do metrô demoraram 20 anos para ficar prontas” e emendou com a pergunta “esse é o tipo de eficiência que você pretende levar pra Brasília?”. Na réplica, Meirelles elogiou a sua própria gestão à frente da Fazenda.

Alckmin então aproveitou para criticar a gestão do ex-ministro. “Alguma coisa deu errado. O país não vai crescer o que deveria, estamos com 13 milhões de desempregados”, disse.

Meirelles ainda teve uma curiosa disputa com o Cabo Daciolo. O candidato do Patriota afirmou acreditar que o ex-ministro e os banqueiros ainda vão “aceitar o senhor Jesus”, provocando risos de outros candidatos. Meirelles respondeu “nunca fui banqueiro, fui bancário”, o que provocou mais risos, desta vez da plateia.

Durante uma troca de perguntas com Boulos, Daciolo ainda aproveitou o tempo para mandar uma declaração de amor para sua mãe. “Te amo, mãe. Te amo, varoa!”, disse.

“Daciolo, a gente já estava com saudade de você aqui no debate”, respondeu Boulos.

Alvaro Dias (Podemos), por sua vez, também atacou Haddad e chamou o petista de “representante do preso em Curitiba”. O senador paranaense ainda chamou o PT de “organização criminosa” e recordou a morte do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel.

Mulheres

Além das trocas de farpas, em busca de votos, o debate também foi marcado por falas dos candidatos dirigidas ao eleitorado feminino, motivadas pela alta rejeição que o líder Bolsonaro enfrenta por essa parcela da população.

Ciro disse que metade dos ministérios num eventual governo seu será ocupada por mulheres. Marina lembrou que é a única candidata mulher entre os principais postulantes ao Planalto. “Temos aqui sete homens e uma mulher pobre, humilde, disputando com eles. Espero, contando com o seu voto, estar no segundo turno. Quero provar que uma mulher de origem humilde pode governar, sim, o Brasil”, disse. Daciolo, por sua vez, mandou um recado mais explícito: “Mulheres brasileiras, amo vocês”.

O debate ocorreu pouco depois da divulgação de uma nova pesquisa Ibope, que apontou que Bolsonaro segue na liderança, mas estagnado com 27%. Haddad apareceu em segundo, com 21%. Ciro e Alckmin apareceram estacionados com 12% e 8%, respectivamente. Marina, por sua vez, está em quinto lugar, com 6%.

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Entrevista

Especialista descarta possibilidade de renovação política em outubro

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Campanha é cara, e dinheiro lícito ficará com caciques partidários

Os resultados das eleições de outubropodem frustrar quem espera mudanças na política nacional. Partidos hegemônicos e políticos tradicionais tendem a se beneficiar de um sistema eleitoral que é pouco permeável à renovação, diz o economista e doutor em direito Bruno Carazza.

Autor do livro Dinheiro, Eleições e Poder, Carazza destaca que as campanhas são caras e que, como já ocorreu em outros pleitos, o financiamento contará com dinheiro ilegal de empresas – em esquemas já vistos nas investigações da Operação Lava Jato. Até mesmo o dinheiro lícito, disponível no fundo de assistência financeira aos partidos políticos e no fundo de financiamento eleitoral, será usado pelos dirigentes partidários para se reelegerem.

No livro, editado pela Companhia das Letras, o economista cruza dados sobre as doações eleitorais, obtidos em delações premiadas, com projetos, votações e atuação de parlamentares – muitos dos quais vão tentar a reeleição em outubro.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista de Bruno Carazza à Agência Brasil:

Agência Brasil: Vamos começar com uma pergunta que o senhor faz em seu livro. “Como criminosos conseguem se reeleger, mandato após mandato, mesmo sendo bombardeados com denúncias de corrupção?”

Bruno Carazza: Temos um sistema eleitoral que favorece pessoas bem conectadas com quem tem dinheiro. Qualquer candidato que pretenda ser eleito precisa fazer uma campanha personalista e cara. Tornar-se conhecido em regiões muito grandes, como são os estados, custa muito dinheiro. Isso acaba fazendo com que os candidatos se aproximem de quem tem dinheiro. Assim, começa na origem um vício de dependência entre o candidato e o doador, seja ele pessoa jurídica (uma empresa), como era na regra antiga, seja ele pessoa física, como é hoje. Outro fator é que temos nas legendas castas avessas à alternância de poder, grupos que chamamos “de caciques partidários”, que concentram poder e dinheiro, e dão as cartas na política partidária e na política parlamentar, depois de eleitos. Além disso, o foro privilegiado é um mecanismo que atrai alguns tipos de políticos. As garantias e regalias que detêm acabam fazendo com que esses personagens se perpetuem na política brasileira.

Agência Brasil: E as alianças políticas e partidárias?

Carazza: [As alianças] ocorrem muito menos por ideologia e muito mais por razão pragmática. Os partidos têm pouca identidade programática. Isso no Brasil é muito difuso. Os partidos procuram não se comprometer com nada para não se indispor com o eleitorado. As propostas acabam sendo bastante fluidas. Há exceções à direita e à esquerda, mais isso é regra em nosso sistema partidário.

Agência Brasil: As mudanças implementadas com o financiamento dos partidos e da campanha eleitoral eram ideias antigas e foram capturadas pelos “caciques políticos”, como disse. Seu estudo é sobre um sistema que sabe se preservar e se perpetuar?

Carazza: Os grandes doadores costumavam procurar os partidos mais de centro e mais de direita, e os partidos à esquerda recebiam poucos recursos. O financiamento público era desejado para equilibrar esse jogo. Quando veio o petrolão [como ficou conhecido um esquema de corrupção e desvio de fundos na Petrobras], a reação foi proibir a doação feita por empresas. O sistema do financiamento privado foi, então, desarticulado. Num instinto de sobrevivência, os partidos se uniram e começaram a abraçar a ideia. Isso foi perfeito para as estratégias dos caciques partidários, muito deles inclusive envolvidos na Lava Jato [operação em que a Polícia Federal investiga esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina]. Assim tornou-se um grande instrumento para estratégias de tentar a reeleição, perpetuar-se no poder e também protelar condenações.

Agência Brasil: A disponibilidade de fundos públicos impede que haja dinheiro empresarial na campanha? Essa verba não declarada não pode financiar as eleições via caixa dois?

Carazza: Não tivemos, após a Lava Jato, a despeito de todas delações de esquemas gigantescos, envolvendo todos os partidos, nenhuma mudança na legislação para coibir o caixa 2, no sentido de aumentar penas e facilitar a investigação de crimes de corrupção, de propina e de financiamento ilícito na eleição. Proibiu-se a doação de empresas, mas sem a contrapartida de coibir a doação ilícita. Também não se avançou para tornar as eleições mais baratas. A lógica do sistema não mudou. O sistema eleitoral continua demandando muito dinheiro. Esse dinheiro virá de algum lugar. Além disso, temos um terceiro elemento: não foi desarmada nenhuma engrenagem desse sistema que faz com que o Estado seja uma mina de oportunidades para o setor privado. Então, temos, de um lado, políticos que vão continuar dependendo de dinheiro para se eleger e, de outro lado, uma série de empresas que têm muito interesse no que o Estado oferece, e têm todo interesse em suprir a demanda dos políticos. Isso não vai ser feito pelas vias oficiais. Um dos efeitos é que o que antes era feito às claras, e a imprensa podia investigar, vai para o subterrâneo de novo, como era na época do PC Farias [Paulo César Farias, tesoureiro de campanha do então presidente Fernando Collor, acusado de envolvimento no esquema de corrupção que levou ao impeachment]. Não tem nenhuma garantia de que as empresas não vão doar como caixa 2, até porque não temos mecanismos para punir isso de forma mais efetiva.

Agência Brasil: Você citou o foro privilegiado como um dos mecanismos que atraem políticos com problemas na Justiça. Mas, quando saem do foro, não há o risco de os processos regredirem várias casas e de os políticos não irem a julgamento?

Carazza: Precisamos de um processo judicial que seja mais célere, mais equilibrado, para que esses políticos sejam punidos de modo efetivo e de forma rápida. Só acabar com o foro privilegiado não resolve o problema. Temos que pensar no sistema para limitar a possibilidade de recursos protelatórios para que tenha decisões mais efetivas e mais rápidas.

Agência Brasil: Nesse sentido, a Operação Lava Jato é uma referência, ou um caso muito isolado para virar paradigma?

Carazza: Ela tem papel histórico e teve efeito positivo ao usar instrumentos modernos de persecução, como as delações premiadas. Obviamente, tivemos exagero na aplicação de um ou outro instituto. A Lava Jato teve o efeito de ter mobilizado órgãos de controle, o Ministério Público e a Polícia Federal.

Agência Brasil: Outubro pode ser frustrante para quem se entusiasmou com a Lava Jato e espera uma grande renovação da política? Que ambiente o próximo presidente deve encontrar para governar?

Carazza: Cada vez mais, estamos aprofundando esse modelo. Em vez de alterá-lo para ser mais positivo, para tornar a política mais inclusiva e mais aberta. Estamos observando a classe política colocando em marcha uma estratégia muito definida e muito articulada de perpetuação no poder como instinto de sobrevivência. Ao que tudo indica, não teremos grandes renovações. E teremos novo presidente eleito tendo que jogar o jogo como ele sempre foi jogado. Não vejo chances de alterar esse nosso presidencialismo de coalizão, que acabou se tornando presidencialismo de cooptação.

Edição: Nádia Franco

Por Gilberto Costa 

ABr

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