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ARTIGOS & OPINIÕES

Enfraquecer o vereador ou capacitá-lo? A escolha que o Brasil deveria fazer

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Um edição extraordinária da Quinze por Dia

Todos os dias, cerca de 15 novas leis são publicadas no Brasil. A Quinze por Dia existe para explicar por que isso acontece e o que isso diz sobre o nosso processo legislativo e a nossa política.

O que acontece quando um parlamentar não tem as condições mínimas para exercer seu mandato? Vira anedota. E quando alguém propõe resolver isso cortando ainda mais? Vira problema.

No saudoso podcast Legis-Ativo, o cientista político Humberto Dantas mantinha um quadro chamado “Legislativo, me ajuda a te ajudar”, em que se narravam fatos inusitados vindos das Câmaras Municipais do país.

Não é à toa, já que grande parte das Câmaras opera com orçamento baixo e equipe precária. O resultado? Histórias que viram anedota e uma realidade que dá dó.

Na democracia representativa, o parlamentar é um cidadão comum escolhido para exercer um mandato, não um especialista formado para isso. É um espelho da sociedade que o elegeu, em uma das campanhas mais disputadas do sistema eleitoral brasileiro. Quando chega à Câmara, não sabe legislar, não sabe fiscalizar. Representa seus eleitores por instinto, sem método e sem estrutura. E quanto menor a cidade, mais cobrado ele é. Afinal, o vereador é o vizinho, o colega de trabalho ou o frequentador da mesma igreja.

Imagine chegar ao seu primeiro dia de trabalho sem treinamento, sem equipe, sem manual e ter como chefe direto toda a sua cidade.

Não importa se ele está pronto para ouvir queixas, várias chegarão até ele, e a maioria não tem solução fácil ou só pode ser resolvida pelos Estados ou pela União.

Recentemente, o deputado federal do Amazonas Amon Mandel escreveu um artigo para buscar apoio a uma proposta de emenda à Constituição Federal. No artigo, o deputado reclamou da atuação das Câmaras, fez uma infeliz comparação e propôs:

“A ideia é substituir o modelo atual de vereadores com salário fixo mensal por um formato de conselheiros eleitos, com função legislativa e fiscalizatória, mas com ajuda de custo por sessão, recebendo pelo justo: o trabalho realizado. Sem a estrutura permanente e cara que hoje pesa sobre o contribuinte, esperamos que mais dinheiro sobrasse para segurança, saúde ou educação. Veja bem: eu não proponho o fim da representação local, mas sim o fim de um arranjo que, em milhares de cidades, virou custo alto para resultado baixo. Uma grande farra com dinheiro público.”

A tese central da proposta tem três problemas graves. Primeiro, pressupõe que o trabalho parlamentar se resume a participar de sessões. Segundo, afirma que o resultado é baixo sem oferecer critérios claros para medi-lo. Terceiro, acredita que reduzir a estrutura das Câmaras vai beneficiar outras áreas da sociedade.

A participação nas sessões plenárias é, de fato, um aspecto importante do mandato, mas a representação popular acontece em muitos outros lugares: na base, onde se escuta a população; no atendimento do gabinete, onde o trabalho é elaborado e resulta em propostas legislativas, indicações e requerimentos.

Um vereador bem estruturado pode articular políticas locais, mediar conflitos comunitários e fiscalizar contratos antes que o prejuízo chegue ao contribuinte. Esse trabalho muitas vezes não aparece na ata da sessão.

Medir o desempenho de um parlamentar é tarefa difícil e até pesquisadores debatem como fazê-lo. Representar, fiscalizar e produzir leis não cabem em planilha. E muitas vezes a própria sociedade escolhe métricas equivocadas, como a conhecida corrida para ver quem apresentou mais projetos, métrica que diz pouco sobre qualidade ou impacto real.

Por fim, a falta de estrutura é o maior perigo. Um conselheiro que recebesse por sessão seria mais isento ou livre das pressões do prefeito? Um conselho com menos recursos que uma Câmara Municipal teria condições de apoiar seus membros na fiscalização e na produção legislativa? A resposta, em ambos os casos, é não.

A saída é aumentar a estrutura do legislativo municipal, em vez de diminuí-la, dando a eles as condições para trabalhar de verdade. Isso é, reconhecidamente, mais difícil já que nenhum município possui orçamento sobrando para melhorar as condições de trabalho em uma Câmara Municipal.

Mas a solução já existe e não precisa ser reinventada. Assim como municípios se uniram em consórcios intermunicipais de saúde para dividir custos e ampliar serviços, as Câmaras poderiam fazer o mesmo, por meio de consórcios legislativos regionais que compartilhem equipe técnica, apoio parlamentar e a gestão interna das Câmaras. Menos custo, mais qualidade, sem sacrificar a representação. O Brasil já conta centenas de consórcios públicos intermunicipais ativos. A lógica funciona.

Todos concordam que a representação pode melhorar, afinal, ela está em crise há muito tempo. Mas a crise da representação não se resolve enfraquecendo quem representa. Diminuir a representação e cortar seus meios de atuação vão deixar a população ainda mais desalentada e sem perspectiva. Se queremos melhores vereadores, precisamos dar a eles melhores condições, e isso começa por parar de tratar o legislativo municipal como um problema a ser extinto.



Avisos e proclames

  • É raro, mas o assunto mereceu uma edição mais quente e extraordinária. A próxima edição ordinária chega no dia 27 de abril.
  • O quê você pensa? Gostou da ideia do deputado? Tem outra solução? Vamos continuar a conversa nos comentários:

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O perigo das operações financeiras informais: o que é legal, o que é arriscado e como o empresário deve se proteger

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Com a digitalização acelerada dos serviços financeiros e o crescimento das fintechs, especialistas alertam que operações fora das estruturas reguladas podem expor empresas a riscos jurídicos, fiscais e patrimoniais

Por Felipe Franchi * – A transformação digital do sistema financeiro brasileiro ampliou o acesso a crédito, meios de pagamento e soluções de gestão de capital para empresas de todos os portes. Ao mesmo tempo, o crescimento desse ecossistema também trouxe um fenômeno preocupante: o aumento de operações financeiras informais ou pouco estruturadas, que muitas vezes prometem agilidade e facilidade, mas podem esconder riscos relevantes para empresários.

De acordo com dados do Banco Central do Brasil, o país conta hoje com centenas de instituições autorizadas a operar no sistema financeiro, além de um ecossistema crescente de fintechs e plataformas tecnológicas integradas a essas estruturas reguladas. A expansão dos serviços digitais, impulsionada por ferramentas como o Pix e o open finance, ampliou a competitividade do setor e reduziu barreiras de acesso para empresas e consumidores.

No entanto, especialistas alertam que nem todas as operações financeiras disponíveis no mercado seguem as mesmas regras ou possuem o mesmo nível de supervisão.

Segundo Felipe Franchi, CEO e fundador da Franchi, fintech especializada em soluções financeiras para empresas, o principal problema surge quando empresários recorrem a estruturas informais sem entender exatamente quem está por trás da operação.

“No mercado financeiro, existe uma diferença importante entre inovação e informalidade. Muitas soluções tecnológicas são legítimas e operam dentro das regras do sistema financeiro, mas também existem estruturas que atuam sem clareza regulatória, o que pode expor o empresário a riscos jurídicos e patrimoniais”, afirma.

Entre os exemplos mais comuns estão operações de intermediação de crédito sem transparência sobre a instituição financeira responsável, plataformas que realizam movimentações de recursos sem estrutura regulada ou ainda promessas de facilidades financeiras sem contratos claros.

Essas situações podem gerar problemas que vão desde disputas contratuais até questionamentos fiscais e bloqueios de recursos. Em alguns casos, a falta de estrutura formal também dificulta a responsabilização em situações de falha operacional ou perda financeira.

Segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, muitos pequenos e médios empresários ainda enfrentam dificuldades para acessar crédito formal, o que aumenta a busca por soluções alternativas no mercado. Embora algumas dessas iniciativas sejam legítimas, outras podem operar em zonas cinzentas do sistema financeiro.

Para Franchi, o empresário precisa adotar alguns critérios básicos antes de contratar qualquer operação financeira. “A primeira pergunta que o empresário deve fazer é simples: quem é a instituição financeira responsável pela operação? Quando a operação envolver crédito regulado, serviços de pagamento ou movimentação estruturada de recursos, é essencial identificar qual instituição autorizada sustenta a operação e sob quais regras ela atua. Sem essa transparência, o risco aumenta consideravelmente”, explica.

Além disso, alguns sinais de alerta devem ser observados com atenção, como a ausência de clareza sobre qual instituição financeira sustenta a operação, contratos inexistentes ou com linguagem vaga, promessas de facilidade excessiva ou ausência de riscos, dificuldade de contato com responsáveis jurídicos ou operacionais e falta de transparência sobre taxas, custos e responsabilidades. Operações que envolvem movimentação de recursos sem explicação clara da estrutura também exigem cautela, pois podem indicar fragilidade ou informalidade.

Outro ponto essencial é a clareza contratual. Operações financeiras estruturadas normalmente apresentam documentos detalhando responsabilidades, custos, limites e regras de funcionamento. Quando essas informações não estão claramente definidas, o empresário pode acabar assumindo riscos que sequer conhece.

O crescimento das fintechs e das soluções digitais tende a continuar nos próximos anos. Segundo dados do Distrito Fintech Report, o Brasil possui mais de 1.500 fintechs, consolidando-se como o principal ecossistema do setor na América Latina.

Nesse cenário, especialistas destacam que a inovação financeira não deve ser confundida com ausência de regulação. “A tecnologia trouxe eficiência e ampliou o acesso ao sistema financeiro, mas as regras continuam existindo justamente para proteger empresas e consumidores. O empresário que entende essa diferença consegue aproveitar as vantagens da inovação sem se expor a riscos desnecessários”, conclui Franchi.

À medida que o sistema financeiro se torna cada vez mais digital, a capacidade de identificar operações legítimas e estruturas informais passa a ser um elemento essencial da gestão financeira empresarial — especialmente para empresas que dependem de crédito, antecipação de recebíveis ou soluções de fluxo de caixa para sustentar seu crescimento.

 

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Quem vai escrever as leis que faltam?

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Uma newsletter com histórias, pensamentos e indicações sobre temas ligados ao Poder Legislativo, política e afins

Participação cidadã na criação de leis e o desafio de regular as redes sociais.

Todos os dias, 15 novas leis são publicadas no Brasil. Esta newsletter é sobre isso e todo o contexto que nos faz chegar a esse número.

A pergunta do título atravessa os dois temas desta edição. No primeiro, um concurso que convida qualquer pessoa a propor legislação para conquistar direitos das mulheres. No segundo, uma lei que já existe, mas que enfrenta o desafio eterno do Brasil: sair do papel. Legislar bem não é só criar normas. É criar normas que funcionem.


Um hackathon legislativo

O Instituto Parla lançou uma chamada aberta para propostas de leis que ampliem e garantam os direitos das mulheres. Vale para normas federais, estaduais e municipais. Isso, por si só, já é um convite para pensar além de Brasília.

A iniciativa provoca algumas reflexões. A primeira é sobre o tema em si: não há dúvida de que ainda há muito a conquistar, mas qual avanço legislativo é mais urgente agora? E como estados e municípios, frequentemente subestimados nessa jornada em razão da sua competência legislativa, podem se tornar protagonistas?

A segunda reflexão é sobre o formato. Concursos como esse têm o potencial de se transformar em verdadeiros hackathons legislativos: um banco de boas propostas, testadas e aprovadas, prontas para ser replicadas por outros estados e municípios. Um copia e cola do bem e o Brasil precisa muito disso.


Proteger crianças das redes: o que realmente funciona?

Na Austrália, menores de 16 anos estão proibidos de criar contas em redes sociais.

After Babel analisou a experiência australiana e identificou quatro elementos que fazem esse tipo de norma realmente funcionar:

1. Proibição total, sem exceções ao consentimento parental. Quando pais têm a opção de autorizar, a pressão dos filhos costuma vencer. Retirar essa possibilidade protege inclusive os pais da própria tentação de ceder.

2. Foco na criação de contas, não no acesso ao conteúdo. Em vez de tentar filtrar o que o jovem vê, tarefa quase impossível, a lei mira no ponto de entrada: o cadastro. É uma abordagem mais objetiva e verificável, embora sua aplicação plena no Brasil ainda mereça debate em razão da facilidade de realização destes cadastros.

3. Atenção ao design prejudicial. Certas funcionalidades das plataformas colocam jovens em risco de forma direta, como a possibilidade de adultos desconhecidos iniciarem conversas com adolescentes. A lei precisa nomear e atacar esses elementos, não apenas estabelecer faixas etárias.

4. Idade mínima de 16 anos. Segundo os autores, fixar o limite em 15 anos seria insuficiente — essa ainda é, em geral, uma fase de plena puberdade, com maior vulnerabilidade emocional e menor capacidade de avaliar riscos online.

No Brasil, o ECA Digital entra em vigor neste mês de março, a pergunta volta com força: o que separa uma lei que protege de uma lei que fica no papel?


Avisos e proclames



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