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ARTIGOS & OPINIÕES

Quem tem medo das emendas parlamentares?

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Uma newsletter com histórias, pensamentos e indicações sobre temas ligados ao Poder Legislativo, política e afins.

Uma edição extraordinária da Quinze por Dia.

Todos os dias, cerca de 15 novas leis são publicadas no Brasil. A Quinze por Dia existe para explicar por que isso acontece e o que isso diz sobre o nosso processo legislativo e a nossa política.

O Brasil poderia ter trocado de nome várias vezes. Começou como uma referência ao pau-brasil, mas poderia ter passado pelo ouro, pela cana-de-açúcar, pelo café.

Hoje poderia trocar o seu nome por soja, gado, minério de ferro e petróleo. Em cada era, o produto que nos define muda, mas o país continua sendo moldado por quem decide o que vale mais.

Com o Poder Legislativo acontece algo parecido. Legislar continua sendo essencial, na apresentação de novas propostas, na discussão e no emendamento dos projetos em tramitação.

Ao lado dos Tribunais de Contas, o parlamentar é um fiscal ativo do uso dos recursos públicos. O poder poderia ser batizado de Poder Fiscalizador.

E, mais do que isso, consagrou sua prerrogativa constitucional de ser um decisor de onde o dinheiro público vai. E outra função tomou o protagonismo: a função alocativa do orçamento público.

Se o nome do Brasil sempre acompanhou o que produzimos de mais valioso, talvez hoje o maior ativo em disputa não seja uma commodity. Seja o orçamento público. E quem decide onde ele vai, decide o país.


Como chegamos aqui

Tudo mudou. O processo de criação das emendas parlamentares impositivas começou com alterações nas leis orçamentárias federais até chegar na constitucionalização do tema. Hoje, uma parte significativa do orçamento federal é decidida pelo Congresso Nacional e essa conquista tem nome: autonomia alocativa do Parlamento.

Isso não é defesa de desvios ou malversações. Crime é caso de polícia e de investigação do Tribunal de Contas. É a defesa de uma função legítima, conquistada democraticamente, e exercida por mais de 61 mil mandatos eleitos pelo voto direto.


A função que Brasília não enxerga

Um ministério em Brasília (ou uma secretaria de estado ou município) pode não saber que o posto de saúde de um distrito rural ficou sem reforma há dez anos. O vereador sabe. O deputado estadual sabe. Os parlamentares recebem esse tipo de demanda todos os dias.

As emendas parlamentares são, muitas vezes, o único canal pelo qual demandas invisíveis ao planejamento centralizado se tornam realidade, dentro do cardápio de ações já previstas nos Planos Plurianuais. O parlamentar não improvisa: ele enxerga o que o Executivo, preso às questões macro, simplesmente não alcança.

Por isso, transparência e rastreabilidade são exigências inegociáveis — no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais. Não como punição ao Parlamento, mas como condição para que a função alocativa seja exercida com legitimidade e efetividade.


Quando o estudo que acusa não se submete ao mesmo critério

Em abril de 2026, um levantamento do Movimento Orçamento Bem Gasto subsidiou uma reportagem do Jornal Nacional com destaque para problemas nas emendas individuais, citando a avaliação de critérios de relevância e transparência nas emendas impositivas.

A pergunta é legítima. O problema é a resposta.

O estudo citado na reportagem não está disponível para consulta pública no site do Movimento Orçamento Bem Gasto. Não é possível verificar sua metodologia, seus critérios de relevância ou suas fontes. Um estudo que não pode ser replicado, auditado ou refutado não deveria ser a base de decisões com impacto nacional.

E fica a pergunta sem resposta: como medir a relevância de uma emenda parlamentar? O que parece inócuo em um escritório em Brasília pode representar um alento concreto para populações do interior do Brasil. Quem define essa régua? Com base em quê?

Transparência não é uma exigência que vale só para o parlamentar. Vale também para quem produz os estudos que chegam ao Supremo Tribunal Federal.


61.370 mandatos sem cadeira à mesa

Essa reportagem tornou-se o principal subsídio para uma Audiência de Contextualização no STF, marcada para hoje, 13 de maio de 2026, no âmbito da ADPF 854.

O objetivo declarado é promover um debate amplo. Mas, mais uma vez, deputados estaduais e vereadores não foram convidados. O mesmo padrão já havia ocorrido na audiência pública de 27 de junho de 2025, quando a ADPF ainda tratava apenas de emendas federais, e ainda assim houve fala de representante de Poder Executivo estadual, mas nenhuma representação do Legislativo subnacional.

Os números precisam ser ditos em voz alta:

60.311 vereadores eleitos nas Câmaras Municipais de todos os 5.569 municípios brasileiros. 1.059 deputados estaduais distribuídos pelas Assembleias Legislativas.

São mais de 61 mil mandatos, escolhidos pelo voto direto da população brasileira, que exercem função alocativa sobre recursos públicos todos os dias. Um debate com consequências para cada um desses municípios e estados fica restrito a representações federais, como se o orçamento público fosse assunto apenas de Brasília.

Não é.


A convocação

Este texto é um manifesto e uma convocação.

Deputados estaduais e vereadores: a prerrogativa que está em discussão hoje é a de vocês. A função de alocar recursos públicos segundo as demandas reais das comunidades que vocês representam não é um privilégio, é um mandato democrático. E ele precisa ser defendido com transparência, com dados e com presença.

O debate qualificado sobre emendas parlamentares é necessário e urgente. Mas debate qualificado sem a participação de quem mais utiliza esse instrumento não é debate, é sentença.

Exijam um lugar à mesa. O orçamento público é de todos. A discussão sobre ele também precisa ser.


A Quinze por Dia acompanhará os desdobramentos da audiência de hoje. Compartilhe este texto com deputados estaduais, vereadores e assessores parlamentares que precisam conhecer o que está em jogo.

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Hora de fazer a riqueza de Mato Grosso chegar ao povo

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Por Jayme Campos*
Mas é preciso dizer com clareza: essa riqueza ainda não chegou, como deveria, à vida da maioria dos mato-grossenses.
O Estado cresce, mas muitas famílias continuam à margem da segurança social. A economia avança, a arrecadação aumenta, a produção bate recordes, mas os benefícios desse desenvolvimento ainda não alcançam, na proporção necessária, quem mais precisa. Há municípios em que milhares de pessoas dependem do Bolsa Família para sobreviver.
Essa é a grande contradição que Mato Grosso precisa enfrentar.
O Estado precisa ir além dos grandes números. Precisa ser também o Estado da renda melhor distribuída, da comida na mesa, do emprego qualificado, da casa digna, da oportunidade para os jovens e da segurança financeira para as famílias.
Segundo o Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública, Mato Grosso aparece na última colocação no indicador de comprometimento de renda, que mede a relação entre dívidas bancárias e a renda total dos domicílios. Em outras palavras, apesar de toda a força da nossa economia, o cidadão mato-grossense está entre os mais pressionados pelas dívidas no Brasil.
Isso não é normal. E não pode ser tratado como se fosse apenas responsabilidade individual de quem se endividou.
Combater situação exige mais do que discursos. Exige decisão política. Exige governo presente. Exige uma gestão que compreenda que desenvolvimento econômico só tem sentido quando melhora a vida das pessoas.
Mato Grosso precisa virar essa página. Está na hora de fazer a riqueza produzida em nosso Estado chegar ao povo.
Isso significa investir em educação de qualidade, formação profissional, qualificação técnica, empreendedorismo, apoio aos pequenos negócios, infraestrutura urbana, saúde, habitação e programas sociais eficientes. Significa olhar para as regiões mais pobres, para os municípios menores, para as famílias que ainda vivem à margem da prosperidade que o Estado anuncia. Em resumo, precisa ouvir o clamor da população. O povo não pode ser tratado como um simples detalhe.
Um Estado verdadeiramente desenvolvido não pode se contentar em produzir riqueza. Precisa distribuir oportunidades.
O cidadão comum precisa sentir o crescimento no salário, no preço dos alimentos, na escola dos filhos, no atendimento de saúde, na segurança do bairro, na possibilidade de abrir um pequeno negócio, pagar suas contas e viver com dignidade.
Esse deve ser o centro de qualquer projeto sério para Mato Grosso.
O futuro do nosso Estado deve ser construído com mais equilíbrio, mais humanidade e mais compromisso com as pessoas. Para tal, basta vontade política e alguém com clara visão de sociedade.
Chegou a hora de repartir melhor as oportunidades. Chegou a hora de fazer a riqueza circular. Chegou a hora de garantir que o povo mato-grossense, que tanto trabalha e tanto produz, seja o principal beneficiário do desenvolvimento do próprio Estado. Porque riqueza de verdade não é apenas aquilo que aparece nas estatísticas. É aquilo que chega à mesa, à casa e à vida das pessoas.
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*Jayme Campos* já foi prefeito de Várzea Grande, governador de Mato Grosso e exerce atualmente o segundo mandato de senador da República.

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Licitações Públicas: Fundamentos e Diretrizes para o Acesso ao Mercado Governamental

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Por João Paulo de Albuquerque*

O mercado público é, sem dúvida, um dos ambientes de negócios mais promissores do Brasil e também um dos menos explorados por quem ainda não conhece seu funcionamento. Todos os dias, órgãos públicos de todo o país abrem processos de compra para adquirir produtos e contratar serviços dos mais variados segmentos. Esse movimento contínuo movimenta bilhões de reais anualmente e cria oportunidades reais para empresas de todos os tamanhos. A boa notícia é que qualquer negócio bem estruturado pode participar desse mercado, independentemente do seu porte ou área de atuação.

Mas afinal, o que é uma licitação? De forma simples, licitação é o processo pelo qual o poder público seleciona, de maneira transparente e competitiva, a melhor proposta para a contratação de um produto ou serviço. Ela existe para garantir que os recursos públicos sejam utilizados com responsabilidade, assegurando igualdade de condições entre todos os participantes. Os princípios que orientam esse processo como isonomia, transparência, eficiência e competitividade são, na prática, as regras do jogo que protegem tanto o interesse público quanto o do fornecedor.

Com a chegada da Nova Lei de Licitações, a Lei 14.133 de 2021, esse mercado passou por uma transformação significativa. A legislação modernizou as regras das contratações públicas, trouxe mais clareza para os processos e ampliou as exigências de governança tanto para os órgãos compradores quanto para as empresas fornecedoras. Entender o que mudou é essencial para quem deseja atuar com segurança nesse ambiente. Não se trata de decorar a lei, mas de compreender como ela organiza e orienta as relações entre o poder público e o setor privado.

Antes de participar de qualquer processo licitatório, a empresa precisa estar devidamente habilitada. Isso significa manter em dia sua documentação jurídica, fiscal, trabalhista e técnica. Parece burocrático, mas é justamente esse conjunto de certidões e registros que demonstra ao poder público que a empresa está apta a cumprir um contrato. Organizar essa documentação com antecedência evita surpresas e elimina um dos principais motivos pelos quais empresas são desclassificadas antes mesmo de apresentar sua proposta.

O mercado público oferece diferentes modalidades de licitação, e cada uma delas tem características específicas. O pregão eletrônico, por exemplo, é a modalidade mais comum para compras de bens e serviços comuns, e permite que qualquer empresa participe de forma totalmente online, de qualquer lugar do país. Já a concorrência é utilizada para contratações de maior complexidade. Conhecer essas modalidades ajuda o empresário a identificar onde sua empresa tem mais chances de competir e a direcionar seus esforços com mais inteligência.

Atuar com estratégia no mercado público exige também atenção à formação de preços. Um dos erros mais comuns de quem está começando é apresentar propostas sem o devido cálculo dos custos envolvidos o que pode resultar em contratos inviáveis financeiramente. Da mesma forma, pesquisar editais com regularidade, acompanhar os portais de compras governamentais e entender o que cada órgão costuma demandar são práticas que fazem toda a diferença para quem deseja se destacar nesse ambiente.

Um ponto que merece destaque especial é o benefício legal destinado às micro e pequenas empresas. A legislação brasileira prevê tratamento diferenciado para esses negócios nas licitações, incluindo preferência em caso de empate e possibilidade de regularização fiscal durante o processo. Esses benefícios foram criados justamente para ampliar a participação de pequenos fornecedores no mercado público e equilibrar a competição com empresas de maior porte. Conhecer e utilizar esses direitos é parte fundamental de uma atuação estratégica.

O acesso ao mercado governamental não exige que a empresa seja grande, mas exige que ela esteja preparada. Estruturar a documentação, compreender a legislação, conhecer as modalidades licitatórias e formar preços com responsabilidade são os pilares de uma atuação segura e sustentável. Para quem decide investir nesse preparo, o mercado público oferece algo raro no ambiente empresarial: estabilidade, previsibilidade e um fluxo constante de oportunidades. O primeiro passo é simples entender as regras do jogo e decidir entrar em campo.


*João Paulo de Albuquerque — Advogado especializado em licitações e contratos administrativos

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