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ARTIGOS & OPINIÕES

O que a balança não mostra

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Por Lívia Catalá*
Durante muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade era medido apenas pelo número na balança. Hoje, porém, uma nova pergunta orienta essa avaliação: a perda de peso ocorreu à custa de gordura ou de músculos?

Essa mudança de perspectiva tem ganhado destaque nos principais congressos internacionais de endocrinologia. Afinal, emagrecer não significa apenas perder quilos, mas reduzir a gordura corporal preservando aquilo que é fundamental para a saúde: a massa muscular.

O músculo é muito mais do que força. Ele participa do controle da glicose, ajuda a manter o metabolismo ativo, protege contra quedas e contribui para a independência física ao longo do envelhecimento. Por isso, preservar a musculatura tornou-se um dos principais objetivos do tratamento moderno da obesidade.

Quando a perda de massa muscular é acompanhada pela redução da força física, pode surgir a sarcopenia, condição associada a maior fragilidade, limitações funcionais e pior qualidade de vida. Um dos métodos mais simples para identificar esse risco é o dinamômetro, aparelho que mede a força de preensão das mãos e pode fornecer informações valiosas sobre a saúde muscular.

Outro aspecto cada vez mais valorizado no tratamento da obesidade é o chamado efeito sanfona. Ciclos repetidos de perda e recuperação de peso podem favorecer o retorno da gordura em maior proporção do que o da massa muscular, tornando o organismo metabolicamente mais vulnerável ao longo dos anos.

A boa notícia é que perder músculo não precisa ser o preço do emagrecimento. Embora alguma redução de massa magra possa ocorrer durante perdas de peso importantes, esse processo pode ser minimizado. A combinação de ingestão adequada de proteínas, exercícios de força e acompanhamento profissional ajuda a preservar a musculatura e a manter a funcionalidade do organismo.

A mensagem é simples, mas cada vez mais atual: no tratamento da obesidade, não basta perder peso. O verdadeiro desafio é perder gordura sem perder força.

*Lívia Catalá é médica endocrinologista — CRM 7034 | RQE 3995. Atende na Clínica Ferraz, presencialmente e on-line

ARTIGOS & OPINIÕES

Muito além do futebol, o Brasil também tem o SUS

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 Por  Marco Felipe*

O futebol é uma das maiores paixões do povo brasileiro. É o esporte que nos une, que faz milhões de pessoas vestirem a mesma camisa, comemorarem as mesmas vitórias e acreditarem que, juntos, podemos superar qualquer desafio. O futebol é parte da nossa identidade nacional.

Mas existe outro patrimônio brasileiro que também merece reconhecimento, respeito e orgulho: o Sistema Único de Saúde (SUS). Assim como o futebol, o SUS está presente em todos os cantos do país. Da maior capital à menor comunidade rural, ele alcança pessoas de diferentes culturas, histórias e realidades. E talvez seja justamente por isso que ele seja uma das maiores e mais complexas conquistas sociais do Brasil.

Em Mato Grosso, essa realidade se torna ainda mais evidente. Somos um estado de dimensões continentais, marcado por grandes distâncias geográficas, vazios assistenciais, comunidades indígenas, povos ribeirinhos, assentamentos rurais e municípios com características completamente distintas entre si. Levar saúde pública de qualidade a todos esses territórios não é uma tarefa simples. Ainda assim, ela acontece todos os dias.

Por trás desse trabalho existem 142 secretários municipais de saúde que, muito mais do que gestores, atuam como técnicos, planejadores, articuladores e solucionadores de problemas. São profissionais que enfrentam diariamente os desafios do financiamento, da logística, da escassez de mão de obra especializada e das demandas crescentes da população.

Enquanto muitos enxergam apenas o atendimento na unidade de saúde, existe uma engrenagem complexa funcionando nos bastidores. O SUS não para. Ele funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, para que vacinas cheguem aos municípios, consultas sejam realizadas, medicamentos sejam distribuídos, ambulâncias estejam disponíveis e pacientes tenham acesso aos serviços de média e alta complexidade.

É um sistema amplo e complexo que atende desde o nascimento até os cuidados mais especializados. Está no atendimento de urgência, nos transplantes, na vigilância epidemiológica, na prevenção de doenças e em inúmeras outras ações que impactam diretamente a vida dos brasileiros. Talvez o maior desafio seja justamente este, o SUS funciona tão “naturalmente” na vida das pessoas que muitas vezes sua importância passa despercebida.

Quando um time entra em campo, vemos os jogadores, mas existe toda uma estrutura por trás para que a partida aconteça. No SUS é a mesma coisa. Há profissionais da saúde, gestores, conselhos, equipes técnicas e instituições trabalhando de forma integrada para garantir que o sistema continue atendendo quem mais precisa.

Por isso, acredito que precisamos falar mais sobre o SUS. Precisamos valorizar seus profissionais, reconhecer seus avanços e compreender sua importância estratégica para o desenvolvimento social do país. O Brasil é conhecido mundialmente pelo futebol, mas também deveria ser reconhecido pela coragem de manter um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, universal, gratuito e acessível para toda a população.

Em Mato Grosso, seguimos fazendo nossa parte. Os 142 gestores municipais de saúde sabem que cada decisão tomada impacta diretamente a vida das pessoas, e é essa responsabilidade que nos move diariamente. Assim como o futebol representa a paixão de um povo, o SUS representa o cuidado com esse mesmo povo. E cuidar das pessoas é, sem dúvida, uma das maiores vitórias que uma sociedade pode conquistar.

*Presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso (Cosems/MT) e Secretário de Saúde de Nova Ubiratã, Marco Felipe

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ARTIGOS & OPINIÕES

No tribunal, é impedimento. No Congresso, é representação?

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Uma newsletter com histórias, pensamentos e indicações sobre temas ligados ao Poder Legislativo, política e afins.

Por Gabriel Scardini de Barros

Todos os dias, cerca de 15 novas leis são publicadas no Brasil. A Quinze por Dia existe para explicar por que isso acontece e o que isso diz sobre o nosso processo legislativo e a nossa política.

Chegou a Copa do Mundo e em 2026 o assunto sempre passa pelo impedimento.

No futebol, a regra é simples: o impedimento é marcado quando o atacante está à frente da defesa no momento do passe. No Judiciário e no Legislativo, o raciocínio não é exatamente esse es a aplicação é bem mais complicada.

O tema chegou ao Judiciário (e você provavelmente acompanhou). Mas também ao Legislativo, a partir de uma reportagem que destaca que mais da metade dos congressistas brasileiros figura no quadro societário de alguma empresa.

A matéria questiona se esses parlamentares deveriam se declarar impedidos de votar e participar de propostas legislativas relacionadas a esses interesses.


O que dizem as regras?

O Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados prevê que o deputado deve declarar impedimento para votar quando a matéria em discussão envolve direta e especificamente seus interesses patrimoniais. No Senado, o impedimento é mais amplo, já que cobre tanto a discussão quanto a votação.

Para entender o debate, é preciso partir de uma distinção fundamental: a função do magistrado não é a mesma do parlamentar.

O magistrado decide conflitos entre partes. Ter interesse pessoal no resultado é um problema clássico, ninguém pode ser juiz e parte ao mesmo tempo.

O parlamentar ocupa uma posição diferente, como representante político, seu papel é apoiar ou rejeitar propostas, não arbitrar conflitos.


Até onde vai o impedimento parlamentar?

Mas há outro problema: até onde iria esse impedimento? Se fosse adotado de forma ampla, deveria se restringir à votação e à discussão ou abrangeria também a autoria de propostas, a relatoria de matérias e as ações de fiscalização?

O que deve ser evitado é muito claro e tem até um termo já consagrado: as leis de alfaiataria (do inglês tailor-made laws) que são aquelas leis que parecem ser normas gerais e abstratas, mas na verdade foram desenhadas para atender um indivíduo, grupo, empresa ou caso concreto.

A dinâmica política torna o quadro mais complexo. Não é raro, por exemplo, que categorias de servidores públicos elejam um parlamentar que também pertence à categoria e tem interesse patrimonial direto nas discussões sobre sua carreira. É igualmente natural que empresários sejam eleitos para representar seus segmentos no Congresso.

E aqui está o ponto central: ter interesse em uma causa não deveria ser em si o problema.

A distinção é entre representar um setor da sociedade e usar o mandato para obter benefícios patrimoniais pessoais e específicos, muitas vezes às custas dos próprios concorrentes do setor que o parlamentar deveria representar.


O importante é representar

Conhecer por dentro as dores e os desafios de um setor pode ser exatamente o que torna um parlamentar mais apto a representá-lo.

Um médico que legisla sobre saúde, um agricultor que debate política agrícola, um professor que discute educação: o conhecimento vivido é um ativo essencial, não um vício.

Mais do que isso, trata-se é parte intrínseca à representação política. Elege-se alguém justamente para que defenda os interesses de quem o elegeu. Um parlamentar sem conexão real com sua base não representa: apenas ocupa um assento.

O problema não é o parlamentar que conhece a causa que defende. É o parlamentar que usa o mandato para se servir dela, obtendo benefícios pessoais que vão além da representação e, muitas vezes, às custas dos próprios representados.

A linha entre representação legítima e captura privada existe, mas é tênue. A verdadeira questão não é se parlamentares podem ter “skin in the game”, podem e devem. A questão é como garantir que o jogo que eles jogam seja o da sua base, não o do seu bolso.


Avisos e proclames

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