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ARTIGOS & OPINIÕES

Sabatina nas Câmaras Municipais: o que a Constituição e o STF permitem

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Uma newsletter com histórias, pensamentos e indicações sobre temas ligados ao Poder Legislativo, política e afins.


Todos os dias, cerca de 15 novas leis são publicadas no Brasil. A Quinze por Dia existe para explicar por que isso acontece e o que isso diz sobre o nosso processo legislativo e a nossa política.

Pela primeira vez em mais de um século, o Senado rejeitou um indicado ao STF. O episódio reacendeu um debate que vai muito além de Brasília: quem controla quem o Executivo nomeia?

No Senado, são muitos os nomes avaliados ao longo dos anos e já houve rejeições para cargos bem além do Supremo: CNJ, DPU, CNMP, embaixadores e agências reguladoras. Para outros cargos, como o Banco Central e alguns tribunais superiores, houve apenas aprovações.

Mas a arguição de nomes não se resume ao Congresso Nacional. Nos estados, isso também acontece para indicações aos Tribunais de Contas, agências reguladoras e outros cargos relevantes.


Por que as sabatinas existem?

Antes de ir aos municípios, vale entender o fundamento do mecanismo.

A sabatina é um instrumento de freios e contrapesos (sim, sua mente acabou de dizer checks and balances). Por meio dela, o Legislativo exerce controle sobre nomeações do Executivo que possam impactar a administração pública ou órgãos de natureza especial.

Esse controle também abre caminho para nomeações de caráter mais estadista, aquelas cujo mandato ultrapassa o período de uma gestão. Para esses casos, faz sentido que os vereadores sabatinem o indicado: conhecer suas convicções e seu domínio sobre os temas que a autoridade terá de enfrentar é parte do processo democrático.

Aqui entra também a questão do voto secreto, constitucionalmente previsto. É um ponto polêmico, já que muita gente não gosta, mas cumpre uma função essencial: proteger o representante do povo de eventual retaliação do Executivo. Sem o escudo do voto secreto, um vereador que rejeita o indicado do prefeito fica exposto. Com ele, o voto é do mandato, não do medo. Esse detalhe faz toda a diferença entre uma sabatina de fachada e uma de verdade.

Por isso, não há possibilidade de sabatina para cargos que integram o gabinete do prefeito, como secretários municipais e o Procurador-Geral do Município. Submetê-los à aprovação da Câmara violaria a separação de poderes.


O que o STF definiu para os estados

Na ADI 2.167, o STF foi direto: assembleias legislativas não podem exigir aprovação prévia para nomeações de dirigentes de autarquias, fundações públicas, empresas de economia mista, interventores de municípios, titulares da defensoria pública e da procuradoria-geral do estado. Quanto aos titulares da procuradoria-geral de justiça, a ADI 452 já havia vedado anteriormente.

Uma lista longa de proibições. E nos municípios, o que sobra?


As Câmaras Municipais também querem sabatinar

São poucos os municípios brasileiros que possuem Tribunal de Contas próprio. Não há Justiça nem Ministério Público municipal. Mas há espaço e ele é mais relevante do que parece.

O caminho mais consolidado é o autorizado pelo próprio STF. No julgamento sobre Roraima, o tribunal considerou constitucional a sabatina prévia pela assembleia legislativa para presidentes de autarquias e fundações públicas. Por simetria, a lógica se estende às câmaras de vereadores.

Um movimento que ganha força é o de conferir mais independência a Ouvidores e Controladores municipais em relação à gestão do prefeito, e para reforçar isso, submetê-los à sabatina da Câmara. Faz sentido: são cargos cuja função é exatamente fiscalizar o Executivo. Indicá-los com escrutínio externo valoriza essa função.

Vale lembrar: para que a sabatina exista, é preciso que haja previsão na Lei Orgânica Municipal ou na legislação aplicável. Geralmente, trata-se da lei que cria o próprio órgão. Portanto, o momento em que o Executivo encaminha esse tipo de projeto à Câmara é estratégico para ambos os lados.


Onde ainda há caminho a abrir

Algumas possibilidades ainda sem precedente consolidado merecem atenção:

  • Sabatina conjunta entre municípios para presidentes de consórcios intermunicipais, uma figura que cresce em relevância e ainda carece de mecanismos de controle adequados. Nesse caso, deve se pensar em uma regra que contemple todos o municípios envolvidos.
  • Ouvidor de empresa pública municipal — diferentemente do presidente da estatal, cuja sabatina o STF proibiu, o ouvidor tem função voltada ao cidadão, não à gestão interna. Essa distinção abre espaço razoável para submissão à aprovação da Câmara.

A sabatina é sobre quem fiscaliza o fiscal. Nos municípios, onde o poder é mais próximo, ampliar esse controle é uma escolha democrática que ainda está disponível para quem quiser fazê-la.


De volta ao Messias?

Um ato da Mesa Diretora do Senado barra nova indicação de nome rejeitado na mesma sessão legislativa, e como o Matheus Luzi escreveu em uma edição da C3P, há possibilidade do presidente renovar a indicação de Jorge Messias.

A tese seria de que a indicação de nome ao STF não seria exatamente uma questão de processo legislativo, onde há vedação de renovação de proposta rejeitada durante o mesmo “ano” legislativo.

O ato da Mesa seria contrário ao poder constitucional do presidente de indicar quem ele bem entender. O que o presidente do Senado fará? Arquivará ou devolverá eventual indicação? Haveria judicialização dessa nova indicação caso não seja processada?

O assunto também é abordado em artigo do amigo Emanuellito de Oliveira Costa.


Avisos e proclames

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Ser servidor público estadual em MT tornou-se uma luta permanente por respeito, valorização e dignidade

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Por Carmen Machado*

Em meio a reuniões, debates, mobilizações e inúmeras tentativas de diálogo, os servidores públicos estaduais de Mato Grosso voltarão às ruas no próximo dia 25 de maio, reafirmando a força do Movimento Sindical Unificado em defesa do serviço público.

Essa não é uma luta isolada.
É a luta de toda a sociedade e de todas as categorias que diariamente sustentam o funcionamento do Estado por meio das Políticas Públicas.

É a luta do servidor que atua na segurança pública protegendo a sociedade, do profissional que fiscaliza nas estradas, atende nos postos de saúde, hospitais, trabalha nas escolas, garante o funcionamento das repartições públicas e executa serviços essenciais que chegam diretamente à população.

São profissionais que dedicaram anos de estudo para ingressar no serviço público por meio do concurso público, que se capacitaram para melhor desempenhar suas atividades mas que, com o passar do tempo, assistiram ao enfraquecimento de suas carreiras, à perda do poder de compra e ao crescente processo de desvalorização salarial.

Hoje, milhares de servidores convivem com o superendividamento, com o massacre dos consignados, consequência direta da ausência de políticas de valorização, das perdas inflacionárias acumuladas e da falta de recomposição salarial adequada. Muitos recorrem às consignações com juros astronômicos para conseguir fechar as contas do mês e garantir o básico, o mínimo assistencial para suas famílias.

Enquanto isso, problemas históricos continuam sem solução:
RGA acumulada de quase 20% não paga, progressões travadas, falta de concursos públicos, sobrecarga de trabalho, sucateamento das estruturas públicas e carência de servidores em diversas áreas essenciais e o assédio nas suas mais variadas formas.

Além disso, cresce de forma preocupante a substituição do servidor efetivo por terceirizações e processos seletivos temporários, medidas que fragilizam o serviço público, precarizam relações de trabalho e comprometem a qualidade do atendimento prestado à sociedade. A quem interessa esse desmonte?? Uma pergunta que não quer calar.

O servidor público não pede privilégios.
O que se reivindica é reconhecimento, valorização e respeito por aqueles que dedicam suas vidas ao funcionamento do Estado e ao atendimento da população mato-grossense.

Diante desse cenário, conclamamos todos os servidores públicos estaduais a participarem do grande ato sindical no dia 25 de maio, às 14h, em frente ao TRT.

Mais do que uma manifestação, este será um momento de união, resistência e fortalecimento da luta coletiva.

Nenhum direito foi conquistado sem mobilização, sem luta.
E somente com participação, consciência política e união conseguiremos avançar na defesa dos servidores públicos de Mato Grosso.

Servidores Públicos o processo eleitoral se aproxima e é preciso refletir: Voto não tem preço, tem consequência!!

*Carmen Machado é
Servidora Pública da Saúde/Aposentada
Presidente da FESSP-MT

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O Ritmo das Coisas Quietas

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Por Márcio Florestan Berestinas*
Houve um tempo em que errar português causava algum constrangimento.Talvez eu esteja romantizando um pouco o passado — hipótese que já não consigo afastar completamente —, porque é bem provável que nossos avós também massacrassem concordâncias em conversas de botequim, cartas apressadas e bilhetes domésticos.

A diferença é que o deslize antigamente morria em família. Hoje ganha engajamento, impulsionamento e, dependendo do algoritmo, talvez até contrato de publicidade. Ainda assim, operava certo pudor linguístico.
A pessoa tropeçava num “mau” e “mal”, atropelava uma crase inocente, cometia alguma barbaridade sintática e, pelo menos, demonstrava um discreto desconforto. Atualmente, erramos com uma autoconfiança que as gerações anteriores jamais ousariam exibir.
Outro dia encontrei um “hajam vistas” num documento tão solene que faltava apenas um brasão dourado e alguém tocando trombeta ao fundo. A expressão “haja vista”, que passou décadas vivendo pacatamente no singular, apareceu flexionada daquele jeito exuberante, como se tivesse decidido fazer crossfit gramatical.E ninguém parecia preocupado.
De uns tempos para cá, criou-se a sensação de que a gramática deve simplesmente aceitar qualquer coisa que a maioria repita. O uso virou uma espécie de salvo-conduto universal. Se milhões falam de determinado modo, então pronto: o idioma que se reorganize.É óbvio que a prática das ruas importa. Sempre importou. Norma nenhuma nasce em gabinete de filólogos vestidos de fraque.
Nosso falar foi sendo moldado por povos, mercados, portos, escolas, erros felizes e improvisos históricos. A própria tradição normativa já exagerou muito ao longo do tempo, tentando transformar preferências estilísticas em leis eternas do universo.A questão é que existe um ponto em que a flexibilização começa a dissolver as referências comuns.
E talvez seja aí que mora a inquietação.Afinal, uma coisa é a transformação orgânica, lenta, sedimentada pelo tempo. Outra é a celebração automática de toda simplificação, como se qualquer resistência às alterações fosse necessariamente sinal de elitismo cultural ou repressão sintática.Convenhamos que ninguém sensato deseja transformar a cartilha numa polícia de costumes. Deus nos livre do sujeito que interrompe churrasco para corrigir próclise entre uma linguiça e outra.
O cidadão pode perfeitamente falar errado e continuar sendo ótima companhia, excelente médico, escritor brilhante, cantor de bolero ou até deputado — embora, nesse último caso, a sintaxe seja o menor dos nossos problemas.Por outro lado, não precisamos tratar todo padrão como relíquia opressiva de uma era a ser demolida.Já enterramos o trema com honras discretas e deixamos pelo caminho alguns acentos diferenciais, sem maiores traumas civilizatórios.
A engrenagem verbal continua viva, embora “linguiça” jamais tenha se conformado inteiramente com a perda daqueles dois pontinhos que lhe davam certa elegância germânica.Modificações legítimas existem.
O desafio é definir o momento exato em que a reforma vira demolição — e suspeito que ninguém possua resposta totalmente segura para isso. Talvez a fronteira esteja menos na alteração em si e mais na capacidade de o idioma continuar preservando clareza, precisão, musicalidade e alguma continuidade histórica consigo mesmo.
De minha parte, tenho enorme respeito pela sociolinguística e pela importante percepção de que a fala popular possui estruturas próprias, coerências internas e riqueza cultural. O preconceito linguístico existe, é real e frequentemente serve para humilhar pessoas muito mais do que para proteger o patrimônio comum.
Paralelamente a isso, nota-se hoje certa impaciência com o estudo das formas tradicionais, frequentemente apresentada como sinônimo de modernidade. Não se trata de um “vale-tudo” institucional — concursos, vestibulares e o mercado de trabalho continuam exigindo a norma culta.
Mas o prestígio cultural da regra parece ter empobrecido, como se estudar sintaxe, regência ou concordância fosse uma atividade levemente suspeita, praticada apenas por senhores amargos cercados de dicionários antigos e ressentimentos acadêmicos.Confesso que, nesse aspecto, minhas simpatias costumam acompanhar Napoleão Mendes de Almeida quase sem deserções — inclusive na velha questão do “em que pese”. Sempre me pareceu estranho flexionar uma expressão que funciona como “apesar de”, “malgrado”, “não obstante”.
Há locuções que envelhecem melhor quando permanecem quietas. Talvez por isso “em que pesem os argumentos” ainda me soe como alguém tentando colocar rodas numa cadeira de balanço.Note-se que isso não significa transformar grandes escritores em réus. A literatura quase sempre respirou melhor quando teve liberdade diante dos manuais — e reside aí parte de sua força vital. Nem Machado de Assis escaparia ileso de certas bancas de concurso contemporâneas.
Felizmente para nós, a escrita artística nunca coube inteiramente dentro das regras frias.Ainda assim, o saudoso Olavo Bilac talvez tivesse razão ao chamar o português de “última flor do Lácio, inculta e bela”.
O poeta exagerava um pouco nos ornamentos, é verdade. Mas compreendia algo fundamental: uma língua não serve apenas para pedir café, discutir política no grupo da família ou escrever legendas indignadas.
Ela guarda memória, humor, ritmo, modos de sentir.Quando a linguagem perde nuances, a nossa capacidade coletiva de expressar as sutilezas do mundo também se empobrece.O mais sensato seria admitir que um idioma pode evoluir sem se desmanchar por inteiro. Pode acolher novidades legítimas sem abandonar suas próprias fundações. Pode abrir janelas novas sem derrubar as paredes da casa.
Existe uma diferença imensa entre reforma e demolição. E o português, convenhamos, já sofreu demais para ainda ter de sobreviver ao entusiasmo destruidor da improvisação.

*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

 

 

 

 

Fonte: Ministério Público MT – MT

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