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JUSTIÇA

Trio é condenado por homicídio de mulher trans dentro de penitenciária

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O Tribunal do Júri de Várzea Grande condenou, nesta quarta-feira (10), todos os denunciados pelo homicídio de Thiago Henrique Varconti, que adotava o nome social Gabriela Varconti. O crime foi praticado no interior do Complexo Penitenciário Ahmenon Lemos Dantas, em 22 de julho de 2024, e ganhou repercussão pela extrema violência empregada contra a vítima.O Conselho de Sentença acolheu integralmente os pedidos do Ministério Público, reconhecendo a responsabilidade criminal de todos os acusados e rejeitando todas as teses defensivas.Dionei Cristian da Silva foi condenado por homicídio triplamente qualificado e fraude processual, à pena de 24 anos e 6 meses de reclusão, além de oito meses de detenção. Os demais réus, Vagner Raimundo Francisco dos Santos Queiroz e Jimmy Stanley Moraes de Oliveira, foram condenados por homicídio triplamente qualificado, cada um à pena de 24 anos e seis meses de reclusão.O veredicto confirmou a acusação de que o crime foi praticado em circunstâncias de elevada gravidade, com o reconhecimento de todas as qualificadoras submetidas à apreciação dos jurados.A decisão encerra um dos casos de maior repercussão do sistema prisional mato-grossense nos últimos anos e reafirma o papel constitucional do Tribunal do Júri na tutela da vida humana.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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JUSTIÇA

Workshop valida diretrizes que vão orientar o futuro do Judiciário de Mato Grosso

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Homem em pé diante de uma tela de projeção apresenta para uma plateia sentada em cadeiras pretas dispostas em fileiras, vista de trás. Sala de teto branco, piso claro e detalhes em madeira.A construção do futuro do Poder Judiciário de Mato Grosso avançou mais uma etapa nesta quarta-feira (10) com a realização do workshop “Validação do Posicionamento, Diretrizes de Longo Prazo e MVV Institucional”, promovido na Escola dos Servidores. O encontro reuniu coordenadores e gestores que integram o grupo tático e de desenvolvimento do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) para discutir e validar elementos que irão compor o Planejamento Estratégico 2027-2032 da instituição.
Durante a reunião, os participantes analisaram as diretrizes estratégicas elaboradas a partir de um amplo processo de escuta e diagnóstico institucional, que envolveu magistrados(as), servidores(as), colaboradores(as), comitês, comissões e representantes da sociedade. O objetivo foi analisar a proposta preliminar da identidade institucional do Tribunal, incluindo missão, visão e valores (MVV), além das estratégias que nortearão a atuação do Judiciário nos próximos seis anos.
O coordenador de Planejamento do TJMT, Afonso Vitorino Maciel explicou que o trabalho chega agora a uma fase decisiva, após a conclusão da etapa de diagnóstico.
Homem de pele clara, óculos de grau, cabelos grisalhos penteados para trás e olhos castanhos. Veste paletó preto sobre camisa branca com colarinho aberto. Fundo desfocado em tons de cinza.“Vencemos a grande etapa do diagnóstico, realizando entrevistas, escutas com servidores e magistrados. Agora, diante de todo esse material coletado, estamos traçando aquilo que chamamos de grandes diretrizes, as macrodiretrizes que irão direcionar a elaboração do mapa estratégico e dos objetivos institucionais”, afirmou.
Segundo ele, o momento também é dedicado à reflexão sobre a identidade institucional construída ao longo dos ciclos anteriores. “Estamos olhando para a nossa missão, visão e valores para verificar se continuam atuais ou se precisam incorporar novos elementos. Depois de analisarmos o passado e compreendermos o presente, começamos a prospectar o futuro e a definir o que o Poder Judiciário de Mato Grosso pretende ser nos próximos anos”, destacou.
Mulher de pele clara e cabelos pretos presos em meio-preso, vestindo camisa cinza-clara, olha para a esquerda. No canto inferior esquerdo, aparece parte de um celular preto. Fundo cinza neutro.A consultora e sócia-diretora da empresa 3GEN, Aline Vênere, responsável por apoiar tecnicamente a elaboração do planejamento, ressaltou que o workshop marca a entrada em uma etapa de definição estratégica.
“Hoje entramos na fase de escolha. Estamos discutindo qual será a nossa missão declarada, qual é a visão de futuro até 2032 e quais estratégias vão ajudar o Tribunal a gerar valor para o cidadão, para o jurisdicionado e para todo o Poder Público”, explicou.
Aline destacou que o planejamento vem sendo construído de forma participativa e com forte envolvimento do corpo funcional. “Ao longo de todo o processo realizamos oficinas, pesquisas e escutas para compreender o que servidores, magistrados e demais públicos esperam para este ciclo. Estamos trazendo essa visão para dentro da construção estratégica e ela está sendo considerada nas decisões que estão sendo tomadas”, afirmou.
Ela lembrou ainda que a fase atual representa mais da metade do trabalho concluído. “Estamos validando a estrutura principal do planejamento. A partir daqui avançamos para a etapa de tradução da estratégia em objetivos, indicadores e projetos que permitirão a execução do que está sendo definido agora”, disse.
Mulher de pele clara sorrindo de frente, com óculos de armação escura, cabelos loiros lisos, colar de elos dourados e brincos vermelhos. Veste camisa azul-escura. Fundo de corredor desfocado.A diretora-geral do TJMT, Andrea Marcondes Alves Nunes ressaltou que o planejamento estratégico está alinhado às diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e aos desafios contemporâneos enfrentados pelo Judiciário. Segundo ela, o objetivo é construir uma atuação cada vez mais eficiente, célere e inovadora, incorporando avanços tecnológicos, como a inteligência artificial, para aprimorar os serviços prestados à população.
Ela destacou ainda que o trabalho é resultado de um esforço coletivo. “Foram realizadas pesquisas, escutas e consultas para identificar demandas e expectativas. É um processo que envolve todas as áreas do Judiciário e que contou com ampla participação dos servidores, magistrados e da sociedade”, afirmou.
Mulher de pele clara sorrindo, com cabelos loiros ondulados na altura dos ombros. Usa blazer branco sobre blusa preta e colares dourados com pingente esférico. Olhar direcionado para a esquerda.A vice-diretora-geral do TJMT, Renata Guimarães Bueno Pereira enfatizou o caráter inovador da metodologia adotada neste ciclo de planejamento. Segundo ela, além dos públicos internos, o Tribunal ampliou os espaços de escuta para aproximar o jurisdicionado da construção das estratégias institucionais. “Estamos consolidando as contribuições da sociedade, dos servidores e dos magistrados para definir a visão de futuro, a missão, os valores e os objetivos que irão orientar o próximo ciclo estratégico do Judiciário mato-grossense”, destacou.
Participação ampliada
O processo de elaboração do Planejamento Estratégico 2027-2032 tem sido marcado por uma ampla participação institucional. De acordo com dados apresentados durante o workshop, foram registradas mais de 1.200 participações e aproximadamente 750 sugestões, resultado do webinário promovido para magistrados, servidores e colaboradores do PJMT, além das escutas realizadas com diversos segmentos internos e externos.
As contribuições recebidas estão servindo de base para a definição das diretrizes de longo prazo e dos objetivos estratégicos que irão orientar a atuação do TJMT até 2032.

Autor: Ana Assumpção

Fotografo: Rodrigo Moura

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Henry, Raskólnikov e a vítima que desaparece

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Raskólnikov, personagem central de Crime e Castigo, obra monumental de Fiódor Dostoiévski, não era um criminoso comum. Era um estudante inteligente, orgulhoso e convencido de que havia descoberto uma verdade que escapava ao restante da humanidade. Antes de matar, elaborou uma teoria. Acreditava que os seres humanos se dividiam em duas categorias: de um lado, os homens comuns, destinados a obedecer às normas morais e jurídicas; de outro, os homens extraordinários, autorizados a ultrapassar essas mesmas normas quando perseguissem um objetivo suficientemente elevado. Entre os segundos se incluía.Napoleão era seu grande exemplo. Milhares haviam morrido em suas guerras; ainda assim, a História o celebrava como um gênio. Os vencedores costumam transformar transgressões em grandeza, quando alegam um benefício coletivo. Foi a partir dessa ideia que Raskólnikov passou a enxergar Aliona Ivanovna, uma idosa que exercia a atividade de agiotagem, não como uma pessoa, mas como uma categoria. Nela não via mais uma mulher concreta, com sua história, suas virtudes e seus defeitos. Via uma usurária. Um obstáculo. Um problema social. Um “piolho”, como a chamava.Se a morte daquela mulher pudesse produzir benefícios maiores, por que não eliminá-la?Primeiro veio a teoria.Depois veio o machado.Mas a realidade possui um defeito que nenhuma teoria consegue corrigir: ela raramente cabe dentro das nossas explicações.Ao entrar no apartamento da agiota, Raskólnikov encontra algo que não estava em seus cálculos. Ou melhor, alguém: Lizaveta. A irmã da anciã. Uma mulher simples, tímida, indefesa e completamente inocente. Ela não fazia parte da teoria, da justificativa. Não fazia parte do raciocínio, mas sim, da realidade.E acaba assassinada, também.Num único instante, toda a construção intelectual começa a desmoronar. A teoria falava de uma usurária; a realidade apresentou Lizaveta. A teoria falava de utilidade social; a realidade apresentou sangue. A teoria falava de categorias; a realidade apresentou uma pessoa.Foi impossível não me lembrar disso ao acompanhar os desdobramentos do caso Henry Borel.Não porque os fatos sejam semelhantes. Evidentemente não são. Mas porque existe uma tentação intelectual que atravessa os séculos: a de substituir ocorrências por categorias, dramas humanos por explicações abrangentes, e histórias concretas por teses gerais. A tentação de transformar a realidade em ilustração de uma teoria previamente escolhida e semente da ideologia.Após o julgamento, muito se discutiu sobre a responsabilidade da mãe de Henry Borel e, ainda mais, sobre o perdão judicial que lhe foi concedido. E algo me chamou atenção. Pouco a pouco, o centro moral da discussão pareceu deslocar-se.A pergunta inicial era relativamente simples: qual foi a responsabilidade de cada pessoa diante da violência brutal sofrida por aquela criança? A indagação, contudo, no veredito dos jurados e no perdão judicial que o sucedeu, parece ter sido substituída por outras questões: Quanto sofrimento a mãe suportou? Quais pressões psicológicas influenciaram suas decisões? Que condicionantes sociais e culturais contribuíram para aquele contexto? Em que medida determinadas estruturas de poder afetaram sua capacidade de agir? São perguntas legítimas. Todas merecem reflexão. Mas, como penetrar subjetivamente na alma daquela mãe? E de que modo se pode afirmar, sem recorrer a conjecturas, que a omissão de seu dever de proteção decorreu da misoginia?Existe, porém, um fenômeno curioso nesse tipo de raciocínio. A ideia da culpa difusa possui enorme fascínio intelectual. Ela permite enxergar nuances, compreender contextos, identificar condicionantes psicológicos, familiares e sociais que ajudam a explicar determinados comportamentos. Em muitos casos, esse olhar não é apenas legítimo; ele é necessário. Mas não pode servir apenas como verniz intelectual para convicções previamente enraizadas. Nenhum ser humano surge no vácuo. Todos somos influenciados por circunstâncias, afetos, medos, dependências e estruturas que influenciam nossas escolhas.O problema começa a surgir quando a explicação passa a ocupar o lugar da responsabilidade. Quanto mais fatores explicativos se acumulam, mais a culpa parece dissolver-se. No limite, todos se tornam um pouco responsáveis e, justamente por isso, ninguém parece responsável de verdade.É nesse ponto que a culpa difusa deixa de iluminar e começa a obscurecer, já que a busca da verdade sai dos trilhos. O resultado é um deslocamento do foco narrativo. A discussão deixa de girar em torno da vítima e dos fatos reais e passa a concentrar-se nos condicionamentos dos adultos. A pergunta deixa de ser “o que aconteceu com aquela criança?” e passa a ser “o que aconteceu com os adultos envolvidos?”. Henry, porém, não era uma teoria. Não era uma categoria sociológica, uma pauta pública ou um estudo de caso destinado a ilustrar debates acadêmicos. Era um menino.Essa é a verdade mais simples e, ao mesmo tempo, mais importante de todo esse episódio.Antes que surgissem interpretações, explicações e narrativas, existia uma criança concreta, com seus medos, curiosidades, brincadeiras e expectativas. Uma criança que carregava consigo tudo aquilo que normalmente associamos à infância: a confiança espontânea nos adultos, a crença de que o mundo é um lugar relativamente seguro e a expectativa silenciosa de que aqueles encarregados de protegê-la efetivamente o fariam.Thiago de Mello escreveu certa vez:“lá vai o meninotrazendo contenteum canto no peito”É difícil imaginar descrição mais adequada da infância.Toda criança carrega uma promessa. Há aniversários ainda não comemorados, amizades ainda não construídas, descobertas ainda não realizadas, escolhas por se fazer. Existe uma vida inteira aguardando para acontecer. Henry carregava tudo isso consigo. E tudo isso lhe foi retirado.Diante de uma criança, percebemos algo que antecede ideologias, teorias e disputas acadêmicas. Percebemos a vulnerabilidade. É justamente por isso que sua morte produziu tamanha comoção nacional.A infância ocupa um lugar singular na ordem moral e jurídica porque a criança não possui autonomia suficiente para proteger a si mesma. Por isso a civilização atribui aos adultos um dever especial. Não apenas o dever de amar. Mas o dever de proteger.A criança confia porque não pode desconfiar. Entrega-se porque não pode defender-se. Depende porque é condição natural do seu existir. Quando a violência surge justamente dentro do círculo encarregado de protegê-la, ocorre algo maior do que uma tragédia individual. Rompe-se um dos pactos mais fundamentais da vida civilizada.Essa constatação ajuda a compreender o desconforto que tantas pessoas sentiram diante do resultado do julgamento. Não necessariamente porque ignorassem o possível sofrimento da mãe ou fossem incapazes de reconhecer a complexidade humana envolvida em situações extremas. O que produzia desconforto era a percepção de que algo fundamental estava sendo deslocado para segundo plano: o menino, a vítima, a pessoa concreta em torno da qual toda a discussão deveria gravitar. Os fatos, enfim.Enquanto parte do debate girava em torno dos condicionamentos, dos contextos e das explicações, muitos continuavam olhando para a mesma pergunta elementar: quem tinha o dever de proteger aquela criança?É uma pergunta simples. Talvez simples demais para uma época fascinada por teorias complexas. Mas algumas das perguntas mais importantes da vida costumam ser simples.Dostoiévski compreendeu isso com uma profundidade extraordinária. Raskólnikov tentou transformar um crime numa tese. Tentou explicar antes de responder. Tentou justificar antes de assumir. Tentou elevar a discussão a um plano tão abstrato, de tal modo que os fatos desaparecessem.Mas os fatos não desapareceram.Lizaveta continuava morta.Existe nisso um ensinamento que ultrapassa a literatura. Toda vez que uma teoria passa a ocupar mais espaço do que a vítima, algo se perde. Toda vez que a discussão sobre os condicionamentos dos adultos se torna maior do que a discussão sobre os deveres concretos que eles possuem, algo se perde. Toda vez que a culpa se espalha tanto que já não conseguimos identificar quem deveria responder por determinados atos ou omissões, perdem-se, simultaneamente, a responsabilidade e a justiça.No romance de Dostoiévski, a realidade reaparece na figura de Lizaveta. No caso Henry, a realidade reaparece na figura do próprio menino. Ela insiste em nos lembrar que, antes de todas as teorias, existia uma criança.Uma criança que deveria ter encontrado proteção, quando encontrou violência. Cuidado, quando encontrou vulnerabilidade. Futuro, interrompido, e que não chegou a conhecer.É justamente aí que reside a principal lição que o caso Henry deixa para além dos autos judiciais. Compreender contextos é importante. Investigar condicionantes sociais, psicológicos e culturais também é importante. Nenhuma sociedade séria pode abrir mão desse esforço de compreensão. Mas existe uma diferença decisiva entre compreender e substituir. Entre compreender e não responsabilizar. Explicações existem para iluminar fatos, não para ocultá-los.Foi exatamente isso que Dostoiévski percebeu em Crime e Castigo. Raskólnikov tentou transformar pessoas em categorias, vidas em argumentos e um crime em tese filosófica. O romance inteiro é a história do fracasso dessa tentativa. A realidade, porém, insiste em reaparecer. Reaparece em Lizaveta, reaparece nas consequências do crime, reaparece na consciência atormentada do próprio assassino e reaparece sempre que alguém tenta substituir seres humanos concretos por divagações intelectuais.No caso Henry, a realidade também insiste em reaparecer. Ela reaparece na figura daquele menino que, como o menino do poema de Thiago de Mello, caminhava pelo mundo trazendo “um canto no peito”. Reaparece na lembrança de uma infância interrompida precocemente. Reaparece na pergunta elementar que nenhuma teoria consegue eliminar: quem tinha o dever de proteger aquela criança?Essa é a pergunta que explica o inconformismo de tantas pessoas diante do resultado do julgamento. Não porque desconheçam a possibilidade de que a mãe tenha sofrido, mas porque continuam enxergando aquilo que jamais deveria ter saído do centro da narrativa: o menino.A justiça pode discutir contextos, condicionamentos e sofrimentos. Pode, e deve fazê-lo.O que ela não pode é esquecer quem precisava ser protegido.Henry não era uma teoria.Era o menino.E uma sociedade que perde de vista o menino corre o risco de perder, juntamente com ele, o próprio sentido da justiça.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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