Connect with us

ARTIGOS & OPINIÕES

A eleição do silêncio: a apatia do eleitor e a névoa na disputa em Mato Grosso

Publicado em

Por Flávio Garcia*
Com quatro décadas de batente no jornalismo político de Mato Grosso, vi de tudo um pouco neste estado. Acompanhei os tempos áureos do jornalismo impresso, quando o barulho das rotativas nas madrugadas antecipava as grandes viradas políticas e o cheiro de tinta nas bancas ditava o tom do debate público.
Vi campanhas inflamadas, comícios históricos nas Praças Alencastro e da República e ruas tomadas por bandeiras e carreatas que sacudiam a capital e o interior. No entanto, o cenário que se desenha diante dos nossos olhos no atual pleito eleitoral é absolutamente inédito. Vivenciamos, pela primeira vez na história recente, a “eleição do silêncio”.
Trata-se de uma disputa esquisita, travada sob um manto de aparente apatia popular. Não se percebe nas ruas aquele fervor característico dos anos anteriores. Os seis candidatos que postulam a vaga ao Palácio Paiaguás parecem caminhar em um terreno minado por um eleitorado arredio, que escuta muito, fala pouco e custa a se empolgar.
A falta de um franco favorito a esta altura do campeonato reflete esse desinteresse velado, ou talvez um desencanto profundo com a classe política tradicional, mantendo o quadro aberto e imprevisível.
Essa frieza se reflete claramente na paisagem urbana. Em pleitos passados, a frota de veículos do estado transformava-se em um verdadeiro outdoor ambulante. Hoje, os poucos carros adesivados que circulam exibem, em sua maioria, apenas material de candidatos às cadeiras proporcionais e ao Senado.
Os governáveis parecem ter perdido o protagonismo do vidro traseiro. E o diagnóstico não é exclusivo da disputa estadual: o quadro espelha perfeitamente a eleição para a Presidência da República, onde o ruído das redes sociais contrasta com o silêncio desconcertante do cotidiano do cidadão comum.
O paradoxo fica ainda mais evidente ao analisarmos o perfil do nosso estado. Mato Grosso consolida-se como um território eminentemente conservador, de direita e de forte alinhamento bolsonarista. Contudo, em vez de ver essa hegemonia ideológica traduzida em festa ou mobilização efusiva nas ruas, o que presenciamos é uma disputa polarizada de tom pragmático e cauteloso entre a direita (dividida em dois candidatos) e a esquerda.
O eleitor mato-grossense parece ter adotado a postura do observador atento: guarda seu voto em segredo, analisa a movimentação dos bastidores e deixa a resposta final para o silêncio das urnas.
(*) Flávio Garcia é jornalista em Mato Grosso, atualmente servidor da Assembleia Legislativa.

ARTIGOS & OPINIÕES

A crise que abala a República

Published

on

Por André Naves*
Desde que nasci, já sobrevivi a diversas crises. No entanto, a que hoje atravessa o Supremo Tribunal Federal, apresenta ingredientes de ineditismo. É importante frisar que nenhum poder está acima da lei, acima da Constituição Democrática brasileira, e que toda crítica aos ministros do STF não se confunde com críticas ao STF, instância democrática, de fundamental importância. 

Em 8 de setembro de 2026, o Ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo do Diretor-Geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e do Diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa. 

A decisão decorreu de pedido formulado pelo Partido Novo em 2 de setembro, no sentido de que fossem adotadas providências para preservar a independência, a integridade e a efetividade das investigações em curso, inclusive com a avaliação do afastamento cautelar do Diretor-Geral.
O ministro André Mendonça registrou que foi submetido a monitoramento sistemático pela inteligência da Polícia Federal, materializado em ao menos seis relatórios de inteligência produzidos entre 3 e 31 de agosto de 2026 e encaminhados, segundo a imprensa, ao Ministro Alexandre de Moraes no âmbito do Inquérito das Fake News. 

Se confirmados, estamos diante da máquina de inteligência do Estado posta a serviço da perseguição, não da investigação, para proteger alvos de denúncias de corrupção. A “arapongagem institucional” que Mendonça denunciou, se verdadeira, é incompatível com o Estado Democrático de Direito, ainda mais pelo motivo de buscar deslegitimar uma investigação prévia. O que estamos vivendo é grave e, lamentavelmente, tem a potencialidade de deslegitimar o órgão maior do Poder Judiciário.

Entretanto, a nomeação e a exoneração do diretor-geral da PF são competência privativa do Presidente da República. Ao afastar a autoridade, o Judiciário praticou, na substância, um ato de gestão executiva. E Mendonça era o alvo do monitoramento. Ninguém deveria julgar a própria causa. A decisão de juiz-vítima não pode ser admitida.

Não é possível, em resumo, aplaudir essa arbitrariedade formal, mesmo que usando como justificativas as mensagens de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Vamos lembrar? “Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?”, perguntou o banqueiro ao ministro Alexandre de Moraes, em diálogos que revelam tentativas de interferência junto ao procurador-geral e ao diretor da PF. Um investigado tentando manobrar a PGR e a Polícia Federal. 

Ou seja, não há mocinho nessa história. Há um sistema em que o poder econômico, o tribunal e a cúpula policial se tornaram instrumentos autoritários e antidemocráticos. Exatamente por isso, a carta dos treze ex-ministros e ex-presidentes do STF – de Eros Grau a Rosa Weber, passando por Celso de Melo – é uma das manifestações mais importantes sobre esta crise. Eles não pedem defesa de ninguém. Pedem o que a República precisa: “imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal, dos gravíssimos fatos” que mergulharam a Corte na “mais aguda crise de sua história”, em sessão pública do Pleno. 

A crise não se resolve escolhendo um lado para condenar, nem outro para absolver. Resolve-se de acordo com o devido processo constitucional e legal.

*André Naves é Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social. Mestre em Economia Política. Comendador Cultural. Escritor e Professor. Saiba mais em www.andrenaves.come em suas redes sociais: @andrenaves.def

 

 

André Naves – divulgação

 

Assessoria de imprensa do Defensor Público Federal André Naves
Ex-Libris Comunicação Integrada
Andreia Constâncio — (24) 99857-1818 | [email protected]

Continue Reading

ARTIGOS & OPINIÕES

Academia Mato-grossense de Letras amplia presença social e aproxima novos públicos 

Published

on

Sob a presidência de Luciene Carvalho, a AML amplia públicos, diversifica ações e fortalece a presença da Academia no Centro Histórico de Cuiabá
Por Lorenzo Falcão – A Academia Mato-grossense de Letras (AML) vive um período de ampliação de sua presença social e de aproximação com públicos que historicamente estiveram distantes de instituições literárias centenárias. Nos últimos anos, ações voltadas à diversidade, à cultura popular, às artes urbanas, à formação, à valorização do patrimônio e à inclusão de diferentes segmentos da sociedade passaram a ocupar com mais frequência a Casa Barão, sede da instituição no Centro Histórico de Cuiabá.
À frente desse movimento está a escritora e poeta Luciene Carvalho, presidenta da AML desde 2023 e atualmente em seu segundo mandato. Sua gestão tem buscado ampliar o acesso à Academia, diversificar os públicos que frequentam a Casa Barão e aproximar a instituição das diferentes expressões culturais e sociais presentes em Cuiabá e em Mato Grosso.
Uma das iniciativas mais visíveis desse processo é o Casa Aberta, realizado mensalmente e de forma gratuita, em parceria com o Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel). Literatura, cultura popular, artes urbanas, ancestralidade, questões de gênero, manifestações afro-brasileiras, povos originários, audiovisual e outras linguagens já ocuparam a programação do projeto.
Em 2026, por exemplo, o Casa Aberta recebeu uma mesa temática do V Congresso da Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos (Afrolic), levando para dentro da Casa Barão discussões produzidas em um congresso internacional. Outras edições abordaram temas como violência contra a mulher, aniversário de Cuiabá, identidade mato-grossense, curadoria, literatura e manifestações da cultura popular.
Outra frente foi o Curso Identidade Cuiabana – Conhecendo o Patrimônio Histórico e Cultural de Cuiabá, desenvolvido pela AML em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Defensoria Pública do Estado. A iniciativa trabalhou com pessoas em situação de vulnerabilidade social que vivem ou circulam pelo Centro Histórico, articulando patrimônio, conhecimento, formação e cidadania.
Foi ao falar dessa experiência que Luciene sintetizou um dos princípios que vêm orientando a aproximação da Academia com a população: “Não podemos deixar de fora essa população que já sofre por tanta exclusão. ”
O resultado desse trabalho também aparece agora em “Identidade Cuiabana – Vozes poéticas do Centro Histórico”, uma das novidades relacionadas aos 105 anos. A publicação reúne escritos de acadêmicos, autores contemporâneos e pessoas em situação de rua, colocando lado a lado diferentes experiências e vozes de quem vive e produz sentidos sobre o Centro Histórico da capital.
A transformação também pode ser percebida na própria composição da Academia. Atualmente, as mulheres ocupam cerca de 40% das cadeiras da AML, um dado significativo na história de uma instituição fundada há mais de um século.
Luciene Carvalho também inscreveu seu nome nessa história ao se tornar, em 2023, a primeira mulher negra a presidir uma Academia de Letras no Brasil. Reeleita para o biênio 2025-2027, segue à frente da instituição em um período marcado pela busca de maior interlocução entre tradição, literatura, patrimônio e diferentes segmentos da sociedade.
“Assim, ao completar 105 anos, a Academia Mato-grossense de Letras não celebra apenas o tempo transcorrido desde sua fundação. A programação coloca lado a lado memória e contemporaneidade, escritores e comunidade, patrimônio e tecnologia, tradição e novas formas de produzir e compartilhar conhecimento”, destaca a presidenta.
Os ladrilhos hidráulicos, as paredes de adobe e taipa e a memória preservada pela Casa Barão permanecem contando a história da Academia. “A diferença é que, aos 105 anos, mais pessoas estão sendo convidadas a entrar, ocupar a Casa e também fazer parte dessa história”, finaliza Luciene.
PROGRAMAÇÃO
8 de setembro – terça-feira
14h30– Inauguração do Ponto das Letras, Ponto de Cultura da AML, e Encontro de Saberes, com participação de professores da rede municipal de educação e da acadêmica Cristina Campos, abordando o Intensivismo, com lançamento de cartilha temática.
10 de setembro – quinta-feira
14h30– Ciranda Literária, com livros para visitação e venda; visita de crianças e adolescentes da rede municipal de educação; Encontrinho de Saberes, coordenado por Jorge Barbosa; Oficina de Cultura Urbana; lanche; projeções; Inteligência Artificial; instalações de artefatos de Povos Originários e Cultura Urbana.
18h30 – Recepção do Casa Aberta e visita guiada.
19h– Casa Aberta – Sessão Festiva, com saudação do acadêmico Aclyse Mattos e Encontro de Saberes entre Ricardo Cavaliere, acadêmicos da AML e comunidade.
20hCelebração dos Amigos da AML.
20h30 – Lançamento de revista, game, totem e documentário.
12 de setembro – sábado
Assembleia da AML e Encontro de Saberes entre o professor e escritor Alberto Rostand Lanverly, presidente da Academia Alagoana de Letras, e membros da Academia Mato-grossense de Letras.
SERVIÇO
O quê: Comemorações dos 105 anos da Academia Mato-grossense de Letras
Quando: 8, 10 e 12 de setembro de 2026
Onde: Casa Barão, sede da Academia Mato-grossense de Letras
Endereço: Rua Barão de Melgaço, 3869, Centro, Cuiabá (MT)
Entrada: gratuita
Transmissão on-line: canal da Academia Mato-grossense de Letras no YouTube
Instagram: @academiamtdeletras

Continue Reading

Segurança

MT

Brasil

Economia & Finanças

Mais Lidas da Semana

Copyright © 2018 - Agência InfocoWeb - 66 9.99774262